Da relação entre limpar seu próprio banheiro e abrir sem medo um Mac Book no ônibus

mac_bus

Antes de começar, uma introdução: esse artigo é antigo. É de 2009, e foi publicado em meu blog pessoal e lá ficou escondido até janeiro desse ano (2013).

Daí em janeiro eu notei que o Ducs estava com acessos anormalmente altos. Fui ver de onde vinham e descobri que era desse meu blog pessoal. Pensei "né possível, esse blog nem cadastrado no Google está." Quando eu fui ver, essa artigo que havia explodido.

O texto teve mais de 150 mil acessos em um par de dias (e não parou de crescer desde então), está com mais de 50 mil "curtidas" no Facebook, foi tuitado diretamente mais de 800 vezes, e isso sem contar os outros lugares onde foi reproduzido na íntegra. Isso em um um texto que não teve divulgação, não estava no Google e tem um título enorme e complicado, contrário a qualquer ensinamento de problogagem.

Até hoje recebe muitos acessos e continua sendo republicado pela web afora. Ele foi discutido em sala de aula de colegial e universidade, foi espontaneamente traduzido pro espanhol e recebi contatos de brazucas do mundo todo sobre ele.

Por popular não quero dizer que todos gostem ou concordem com ele. Recebi minha cota de pessoas me xingando. E muitas críticas também.

Algumas pessoas parecem se incomodar pelo texto não ser uma análise sociológica completa, imparcial e rigorosamente científica. Não é e nem quer ser. É um post de blog, curto, parcial, e tem orgulho disso.

Desde 2009 eu aprendi muito mais sobre a sociedade holandesa (e sobre a brasileira), como o seu PS original previa, e hoje vejo muito mais nuances do que via em 2009. Apesar disso o texto continua atual e causando reflexão nas pessoas.

Como autor, eu não poderia pedir mais.

Abaixo, o texto original, incluindo o PS da época, sem correções nem adições.

Da relação entre limpar seu próprio banheiro e abrir sem medo um Mac Book no ônibus

A sociedade holandesa tem dois pilares muito claros: liberdade de expressão e igualdade. Claro, quando a teoria entra em prática, vários problemas acontecem, e há censura, e há desigualdade, em alguma medida, mas esses ideais servem como norte na bússola social holandesa.

Um porteiro aqui na Holanda não se acha inferior a um gerente. Um instalador de cortinas tem tanto valor quanto um professor doutor. Todos trabalham, levam suas vidas, e uma profissão é tão digna quanto outra. Fora do expediente, nada impede de sentarem-se todos no mesmo bar e tomarem suas Heinekens juntos. Ninguém olha pra baixo e ninguém olha por cima. A profissão não define o valor da pessoa – trabalho honesto e duro é trabalho honesto e duro, seja cavando fossas na rua, seja digitando numa planilha em um escritório com ar condicionado. Um precisa do outro e todos dependem de todos. Claro que profissões mais especializadas pagam mais. A questão não é essa. A questão é “você ganhar mais porque tem uma profissão especializada não te torna melhor que ninguém”.

Profissões especializadas pagam mais, mas não muito mais. Igualdade social significa menor distância social: todos se encontram no meio. Não há muito baixo, mas também não há muito alto. Um lixeiro não ganha muito menos do que um analista de sistemas. O salário mínimo é de 1300 euros/mês. Um bom salário de profissão especializada, é uns 3500, 4000 euros/mês. E ganhar mais do que alguém não torna o alguém teu subalterno: o porteiro não toma ordens de você só porque você é gerente de RH. Aliás, ordens são muito mal vistas. Chegar dando ordens abreviará seu comando. Todos ali estão em um time, do qual você faz parte tanto quanto os outros (mesmo que seu trabalho dentro do time seja de tomar decisões).

Esses conceitos são basicamente inversos aos conceitos da sociedade brasileira, fundada na profunda desigualdade. Entre brasileiros que aqui vêm para trabalhar e morar é comum – há exceções -  estranharem serem olhados no nível dos olhos por todos – chefe não te olha de cima, o garçom não te olha de baixo. Quando dão ordens ou ignoram socialmente quem tem profissão menos especializadas do que a sua, ficam confusos ao encontrar de volta hostilidade em vez de subserviência. Ficam ainda mais confusos quando o chefe não dá ordens – o que fazer, agora?

Os salários pagos para profissão especializada no Brasil conseguem tranquilamente contratar ao menos uma faxineira diarista, quando não uma empregada full time. Os salários pagos à mesma profissão aqui não são suficientes pra esse luxo, e é preciso limpar o banheiro sem ajuda – e mesmo que pague (bem mais do que pagaria no Brasil) a um ajudante, ele não ficará o dia todo a te seguir limpando cada poerinha sua, servindo cafézinho. Eles vêm, dão uma ajeitada e vão-se a cuidar de suas vidas fora do trabalho, tanto quanto você. De repente, a ficha do que realmente significa igualdade cai: todos se encontram no meio, e pra quem estava no Brasil na parte de cima, encontrar-se no meio quer dizer descer de um pedestal que julgavam direito inquestionável (seja porque “estudaram mais” ou “meu pai trabalhou duro e saiu do nada” ou qualquer outra justificativa pra desigualdade).

Porém, a igualdade social holandesa tem um outro efeito que é muito atraente pra quem vem da sociedade profundamente desigual do Brasil: a relativa segurança. É inquestionável que a sociedade holandesa é menos violenta do que a brasileira. Claro que aqui há violência – pessoas são assassinadas, há roubos. Estou fazendo uma comparação, e menos violenta não quer dizer “não violenta”.

O curioso é que aqueles brasileiros que queixam-se amargamente de limpar o próprio banheiro, elogiam incansavelmente a possibilidade de andar à noite sem medo pelas ruas, sem enxergar a relação entre as duas coisas. Violência social não é fruto de pobreza. Violência social é fruto de desigualdade social. A sociedade holandesa é relativamente pacífica não porque é rica, não porque é “primeiro mundo”, não porque os holandeses tenham alguma superioridade moral, cultural ou genética sobre os brasileiros, mas porque a sociedade deles tem pouca desigualdade. Há uma relação direta entre a classe média holandesa limpar seu próprio banheiro e poder abrir um Mac Book de 1400 euros no ônibus sem medo.

Eu, pessoalmente, acho excelente os dois efeitos. Primeiro porque acredito firmemente que a profissão de alguém não têm qualquer relação com o valor pessoal. O fato de ter “estudado mais”, ter doutorado, ou gerenciar uma equipe não te torna pessoalmente melhor que ninguém, sinto muito. Não enxergo a superioridade moral de um trabalho honesto sobre outro, não importa qual seja. Por trabalho honesto não quero dizer “dentro da lei” -  não considero honesto matar, roubar, espalhar veneno, explorar ingenuidade alheia, espalhar ódio e mentira, não me importa se seja legalizado ou não. O quanto você estudou pode te dar direito a um salário maior – mas não te torna superior a quem não tenha estudado (por opção, ou por falta dela). Quem seu pai é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão. Um doutor que é arrogante e desonesto tem menos valor do que qualquer garçom que trata direito as pessoas e não trapaceia ninguém. Profissão não tem relação com valor pessoal.

Não gosto mais do que qualquer um de limpar banheiro. Ninguém gosta – nem as faxineiras no Brasil, obviamente. Também não gosto de ir ao médico fazer exames. Mas é parte da vida, e um preço que pago pela saúde. Limpar o banheiro é um preço a pagar pela saúde social. E um preço que acho bastante barato, na verdade.

PS. Ultimamente vem surgindo na sociedade holandesa um certo tipo particular de desigualdade, e esse crescimento de desigualdade tem sido acompanhado, previsivelmente, de um aumento respectivo e equivalente de violência social. A questão dos imigrantes islâmicos e seus descendentes é complexa, e ainda estou estudando sobre o assunto.

Ingressos pra atrações em Amsterdam

Um jeito bacana de retribuir o Ducs e ainda se dar bem é comprar ingressos online comigo. Assim você evita ficar tomando vento em fila quando você devia estar passeando… e me dá uma força preciosa!

Dá uma olhada na página de ingressos do Ducs Amsterdam

Booking.com

Reserva um hotel bacana aqui em Amsterdam!

Eu escrevi um artigo com muitas onde ficar em Amsterdam.

E se você fizer sua reserva através dos links do Booking aqui no Ducs, eles repassam uma comissão pra gente (ao mesmo tempo que você paga menos pelo hotel).

Então é uma forma de apoiar o Ducs em Amsterdam e ainda descolar um lugar legal, ter suporte em português e pagar menos! :) Todo mundo ganha!

Booking.com

10 comentários em “Da relação entre limpar seu próprio banheiro e abrir sem medo um Mac Book no ônibus”

  1. Meu nome é Alex Balieiro e moro em Ananindeua região metropolitana de Belém/PA, tenho uma profissão especializada e não me acho melhor que ninguém e, muito menos, inferior a quem ganhe mais que eu. Adorei teu texto e concordo plenamente com tudo que você diz nele. Parabéns Daniel!
    Aqui as coisas continuam assim, mas como na estória do beija-flor, se cada um fizer sua parte, juntos conseguiremos reverter essa situação. Tento passar essa consciência para todos ao meu redor.

    Responder
  2. Li o seu blog e achei interessante o tema. Me atrai muito a Holanda pelo fato da sua história. Concordo com você Daniel. Pelo que entendi, as pessoas idealizam a Europa como a perfeição e Holanda inclusa, claro que a maioria dos países Europeus tem um desenvolvimento econômico melhor que o Brasil. Porém a realidade em alguns ( ou a maioria dos países Europeus), é que em questão da saúde não tem um plano como temos o Sus (claro, nunca fui a Europa, mas sei pelo que contam), me corrija por favor se estou errada. E a questão que você colocou sobre o "limpar o banheiro", eu interpretei que cada um tem que cuidar do seu País, fazer o melhor como bons cidadãos e ninguém é melhor que ninguém, tomos temos que ser educados e tentar ajudar a quem precisa.

    Responder
  3. Aqui no Brasil essa famosa realidade já esta começando a mudar, mesmo que timidamente e em alguns lugares esparsos.
    Minha família é da classe média. Não classe "C" ou "D" como dizem aí. Depois das mudanças para "regularizar" o trabalho de empregada doméstica , não é mais qualquer um que pode pagar 2.000 pila ou mais para uma trabalhadora em tempo integral ou mais de 100 reais a hora de uma faxina básica em uma kitnet. Muitas famílias estão começando a se reestruturar nessa questão. Digo isso pois aconteceu com a minha(onde fui criada com 1 babá para mim e 1 para a minha irmã e empregada minha infância e adolescência inteira)mas também com outras famílias do meio social onde vivo. Arrumar um emprego, ainda mais sendo jovem e formado com curso superior, mestrado, pós... (como é o caso de amigos meus) há pouco tempo está ficando bem complicado. Ainda mais nos tempos de "crise" que vivemos (inclusive ja saíram reportagens em sites renomados de economia ou política recentemente). O salário de um advogado em inicial, sem ser em um escritório grande, renomado ou com "PAItrocínio" para 40hrs semana não está muito mais alto ou por vezes é até inferior para quem quer trabalhar em um shopping ou açougueiro de mercado,como minha irmã já viu tempos atrás enquanto procurava emprego na área jurídica. Claro que esse cenário ainda não faz parte do Brasil inteiro, há de se lembrar que existem ainda regiões muito pobres economica e politicamente (ex: cidades em regiões do Norte). Mas isso é o reflexo de duas coisas que acabam se complementando como causas: a da extensão do país e a o investimento com fins de desenvolvimento desigual entre as 5 regiões.

    Responder
  4. É muito difícil querer tomar como modelo um país que não possuem nem 10% do tamanho geográfico e populacional do Brasil.

    Responder
  5. Queria comprar maquina de lavar roupa para meu filho mas nao sei nome de lojas
    Para ver pela net.
    Pode me ajudar?
    Obrigada

    Responder

Deixe um comentário

Notifique-me de novos comentários via e-mail. Você também pode se inscrever sem comentar.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.