Sabadão de manhã embarcamos na boa e velha Centraal Station de Amsterdam rumo à Bélgica. Pegamos bilhete de segunda classe mesmo. Aliás, até agora não vi qualquer motivo pra pegar bilhetes de primeira classe nos trens holandeses. A poltrona é minimamente mais confortável e só. A diferença é desprezível, na minha modestíssima opinião e não vale qualquer grana extra. Já me disseram que a vantagem da primeira classe é que tem menos gente, mas enfim. É confortável o suficiente pra dormir e foi o que fizemos, já que acordamos cedão.
Os trens não atrasam e tudo, mas rolou um lance engraçado na viagem. Na primeira cidade da Bélgica paramos e ficamos um tempo lá… e mais um tempinho… ai a mulher que anunciava as paradas no alto falante do trem disse:
- Senhoras e senhores, estamos aguardando nosso colega, o condutor belga chegar. Sem ele não podemos prosseguir viagem. Pedimos desculpas bla bla.
Oooooopa! O belga dormiu demais? Mal saímos da Holanda e já começou a baderna. Eu e a Carla, já embarcados na mania francesa e holandesa de sacanear belga, ficamos tirando coco do tal “colega” um tempinho. Dali a pouco a mulher anunciava de novo:
- Senhoras e senhores, nosso colega belga (ela fazia questão de dizer que o mané era belga) estará conosco em aproximadamente cinco minutos (se o panaca conseguir se vestir a tempo… não, essa parte ela não disse)… pedimos desculpas etc e tal.
Após a gente sacanear mais um pouco (o atraso nem foi tanto assim), o cara deve ter chegado, o trem saiu e a gente ouviu a moça anunciar que estava rolando uma paralisação dos ferroviários belgas, o que causaria transtornos, pedimos (já sabem). Oras vejam só, não é que rolou uma operação tartaruga do belga. E não seria a última que a Bélgica nos aprontaria pra matar nossas saudades do Brasil.
Mas enfim, continuamos viagem e lá pelas tantas vieram guardinhas belgas, de chapéuzinho oficial e tudo, passando no corredor e parando nas pessoas. Ahá, esses não estavam de greve. Os hominhos vinham, pediam papéis pros passageiros, olhavam, devolviam e tal. Meu modo paranóico ligou e já pensei, pá, cruzamos a fronteira, há de ser controle de passaporte. Tinham me dito que na Alemanha os caras checam o passaporte no trem, já haviam olhado nossas passagens na Holanda, então já avisei a Carla pra ela pegar o azulzinho. Ela estava na poltrona de costas, nem tinha visto o guardinha, mas se eu tava dizendo, né? Pegou lá e esperou.
Quando o guardinha veio olhou pra Carla e estendeu a mão. Ela toda sorridente, deu o passaporte pro homem. Que olhou com a maior cara de desconcerto do mundo. Ai quem se desconcertou foi a Carla. Ficaram os dois com gigantes pontos de interrogação sobre a cabeça e caras de ué. Mas o belga facilitou tudo quando explicou o que ele queria em francês. A Carla subiu dois pontos na cara de ué. O belga, se conformando que nem todo o mundo fala francês (só o mundo civilizado, claro, o que largamente exclui, principalmente, os Estados e o Reino Unidos), mandou em, suspiro, inglês:
- I don’t want your passport, I need to see your ticket!
O homem queria ver a passagem! Ele achou o maior absurdo do mundo a Carla querer mostrar o passaporte pra ele. Como assim? Pra que, me diz, PRA QUE eu iria querer ver seu passaporte? Ele deu risada. Só se você não tiver passagem. Você não tem a passagem?
A Carla, não, não, eu tenho, pera. O guardinha belga estava achando tudo muito engraçado, imagina, mostrar o passaporte ao cruzar a fronteira, que absurdo. Ele carimbou a passagem e saiu ainda rindo-se, heh, passaporte, imagina… enquanto a Carla me fuzilava com olhar, como ela faz toda vez que eu faço uma besteira (o que quer dizer que ela faz esse olhar o tempo todo, coitada).
- Eu, hã, eu achei que… balbuciei… mas é que… hã…
- Me fez pagar o maior mico!
- Então é que eu…
- Você disse que viu eles pedindo os passaportes!
- Não, não, eu vi eles pedindo uns papéis, eu supuz que… hah… oh, amor, tudo na vida é aprendizado…
Ela resmungou alguma coisa depois ficamos dando risada. Isso é uma das coisas mais legais que vi aqui na Europa até agora. Nós entramos na Bélgica, nos hospedamos em um hotel, saímos, voltamos pra Holanda e olha, não nos indentificamos nenhuma vez. Nenhuminha. No hotel eu disse que eu tinha uma reserva no nome de missiê Diclô, o cara disse, pois não, seu quarto é o 309. Não pediu pra ver qualquer ID. Nada. Eu podia ser o James Bond disfarçado, mas eu disse que era o missiê Diclô e pumba, estava dito. Os direitistas podem me xingar (eles nem precisam de pretexto mesmo, então…) mas eu, particularmente, acho isso do caralho. No Brasil a gente está acostumado a mostrar nosso RG original pra entrar numa porra de um prédio de escritórios! Um monte de site pede seu CPF pra deixar você navegar. Dizem que mesmo na Europa estão tentando empurrar essa obrigatoriedade de identificação (já até passou uma lei na Holanda que obriga as pessoas a andarem com ID o tempo todo), mas acho isso triste, como cada vez mais triste tem ficado o mundo desde 2001. Pelo menos por aqui ainda encontra-se alguma resistência. Muita gente não acha uma boa idéia, e ainda é possível fazer o que fizemos, ir pra outro país sem identificação. No Brasil eu já nasci com essa mentalidade de se identificar o tempo todo implantada, ninguém sequer questiona, é parte da vida ter seu RG e mostrá-lo pra embarcar em uma droga de um ônibus intermunicipal!
Mas afinal chegamos na estação de Bruxelas. Bruxelas tem 3 estações principais de trem: Norte (fr: Bruxelles-Nord, nl: Brussel-Noord, en: Brussels North), Centro (fr: Bruxelles-Central , nl: Brussel-Centraal, en: Brussels-Central) e Sul (fr: Bruxelles-Midi, nl: Brussel-Zuid, en: Brussels-South). Atenção que “Estação de trem” em francês é Gare, então os nomes também aparecem por ai como Gare du Nord etc. Enfim, é simples: norte, centro, sul. O resto da confusão é só nome, já que a Bélgica é um país bilíngue (francês e holandês). A estação Sul é a mais moderna, e aonde param os trens de alta velocidade. Nunca estive nela, então não posso falar muito. A do centro é uma estação subterrânea, e está bastante zoada. Fios aparecendo, suja, banheiros desativados, poucas placas… mas em compensação é a melhor localizada se você quer ir pro centrão de Bruxelas, perto a pé de tudo que interessa lá. E a do norte é super bonita, moderna, mas a vizinhança é um pouco, bem, suspeita. Por algum motivo decidimos descer na norte, achando que era mais perto do nosso hotel e mais fácil de irmos pro Atomium, a parada de 102 m em forma de molécula. Como a Carla contou, nem foi uma grande idéia. Concluímos depois, após fato, que deveríamos ter descido na Central, onde tem conexão com o metrô. Fizemos besteira. Mas tudo na vida é aprendizado, né amor?
Nos próximos posts a viagem continua.
Serviço
Tempo de viagem de Amsterdam pra Bruxelas
Da estação Amsterdam Centraal até Bruxelas são cerca de 3 horas de trem (pra preços, consulte aqui: http://www.ns.nl - (versão em inglês). Bruxelas possui 3 estações de trem. Se não sabe em qual descer, está em dúvida, escolha a central (fr: Bruxelles-Central , nl: Brussel-Centraal, en: Brussels-Central), que é mais fácil pra ir pra outros lugares.
Passe de condução em Bruxelas
Pra se locomover na Bélgica compre um passe pro dia, o Day-pass (nl: dagpas), por cerca de 4€. Se for fim de semana, esse passe vale pra duas pessoas! Vale muito a pena. A pegadinha é que você tem que validá-lo em todo transporte que entrar ao longo do dia. Procure pelas caixinhas amarelas de carimbar o passe. Não se assuste, a maquininha devolve pra você depois de engolir e carimbar.
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Continue a viagem:
- Rumo à Bélgica: preparações
- Visitando Gent (ou Ghent) na Bélgica
- Foto do dia – casa em Bruges
- Explorando a Bélgica: perdidos
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{ 2 comentários… leia abaixo ou deixe um }
Estou adorando! Finalmente, vocês chegaram em um lugar em que se pronuncia corretamente “Duclós”
pode crer aline… fiquei tao emocionado quando, ao fresponder em nome de quem a reserva, eu mandei
Missiê Diclô
e o cara disse, ah pois não, aqui está e localizou certinho a minha reserva! Na Holanda e no Brasil é, Duclós, HÃ? Du-clos – Como? DUCLÔS – Como é?? Suspiro… Dê de dado, U de universo… toda a vez!