Quando vi que iria mesmo pra Holanda, fui correndo pra Wikipedia ler sobre o país e a língua. O país parecia lindo (e é), com muita história (e é), mas a língua me apavorou! Como que alguém podia falar aquilo? Pra começo de conversa (hein, pescaram?) o gê. O gê é pronunciado em holandês como rê. O mesmo som de caRRo. Já o érre é pronunciado como em aRte, mas vibrando um pouco mais. Ok, ok. Aí vem o horror: eles combinam o gê com érre nas palavras! Tente falar “graag”. Cada gê deve ser pronunciado como RR, mesmo o último gê da palavra. E “graag” quer dizer algo como “com prazer”, como o “gladly” em inglês. Então é usado como um “por favor” (equivalente a um “se te agrada”) e como um de nada (graag gedaan, “fiz por que me agrada”, ou seja, de nada). Uma palavra tão comum e é um inferno de pronunciar!
Quando descobri que o ch também é pronunciado com o fundo da garganta entendi aquele comediante (inglês, claro) que disse que o holandês não é uma língua, é uma dor de garganta. Sério, o consumo de chazinho com mel e propólis deve ser um dos mais altos do mundo aqui.
Mas aí me disseram, não se preocupe, todo mundo fala inglês lá. Todo mundo. Mesmo. Relaxa. Eu falei, hm, sei, sei, esse negócio de todo mundo é sempre aquela história… e o caixa do supermercado? E o cobrador de ônibus? Todo mundo com escola, eles querem dizer.
Acontece que todo mundo tem escola aqui. E sim, o caixa de supermercado fala inglês. O cobrador de ônibus (mais comumente aqui de tram, quase não pego ônibus) dá altas dicas em inglês. O entregador de pizza. O caixa do cinema. É impressionante. Na verdade, as pessoas que menos falam inglês em geral são os imigrantes (aqui está cheio, especialmente da Polônia e do Marrocos), os holandeses falam um inglês entre bom e fluente. Com inglês aqui você vive muito bem (existem casos, e a Carla encontrou um desses, de ingleses que estão morando aqui há dez anos e não falam uma palavra de holandês.)
Isso não quer dizer que está tudo em inglês aqui, nem de longe. As placas de trânsito, os avisos no tram, as instruções do metrô, está tudo em holandês. E cara, os holandeses falam holandês pra caralho. O problema é que eles não falam holandês contigo, se detectam que você é estrangeiro, mesmo que você queira aprender um pouco dessa língua. E eles parecem simplesmente não assimilar muito bem o conceito de alguém querendo voluntariamente aprender algo de holandês, especialmente se o cara fala inglês ou francês.
Eles ficam muito surpresos quando você demonstra interesse. Acham graça, uma graça infinita. E se você insiste eles te olham e dizem: mas por quê? Nós somos um país tão pequeno, e praticamente só nós falamos holandês. Nós é que temos que aprender a língua dos outros pra nos comunicarmos com o mundo! Por isso todo mundo aqui fala inglês ou francês e com freqüência os dois. Holandês não vai te ser útil!
- A não ser que você esteja na Holanda, certo? respondo piscando um olho.
Claro, eles automaticamente assumem que você é um turista que vai ficar aqui dois dias e ir embora, então pra que aprender toda uma língua? Mal sabem eles que efetivamente fiz um ano de aulas de Latim e um mês (infelizmente, um dia ainda volto) de Grego clássico, que acontecem de ser falados por ainda menos pessoas no mundo. Eu gosto de línguas, e não estou necessariamente interessado na utilidade prática delas.
Mas confesso que gosto dessa atitude pragmática de aprender o inglês pra se comunicar com o mundo, e gostaria de ver ela mais difundida no Brasil. No Brasil parece ser comum uma atitude de “fodam-se os americanos, vamos dominar nós falando português”. Pelo menos encontro ela muito e ficou especialmente evidente na pré história do Orkut. Vocês sabem, né, que houve uma época em que a língua do Orkut era o inglês. Aí vieram os brasileiros em uma torrente, e escreviam em todo o lugar em português, orgulhosamente monoglotas, e eu li, ninguém me contou, vários deles xingando, “fodam-se, seus americanos de merda, não vou falar inglês nessa comunidade”, quando alguém pedia pra eles escreverem em inglês.
Só que o cara não era americano. Nem sequer britânico. Nem australiano. Nem canadense. Era finlandês. O que muita gente parece falhar em perceber, ou assumir, é que o inglês não é mais a língua dos americanos. É a língua franca do mundo! Em algum texto da letras que eu não lembro mais a referência dizia que 3/4 dos falantes de inglês do mundo não eram nativos!
Exemplo óbvio e claro disso é que eu estava discutindo essas coisas com um holandês em uma loja sem um único americano em volta. Ele não falava português, eu não falo holandês e, ó, a gente conseguiu se comunicar. Exigir que o mundo fale português é besta e tem o efeito de nos isolar, e não integrar – o que efetivamente aconteceu no Orkut. Eles traduziram a interface pro português, o resto do mundo foi embora porque não conseguia entender nada do que os brasileiros falavam e pumba, ficamos sozinhos lá. Oh, que bom. E com isso um sujeito perde a oportunidade de entrar em contato com outras culturas, conhecer mais pessoas.
E enquanto nós “dominamos” o Orkut (quem realmente se importa?) e os fóruns da internet, os indianos, com aquele inglês tosco deles, exportam profissionais de TI pro mundo inteiro, pegando empregos em euros e dólares, os quais levam de volta pra Índia, junto com o aprendizado e experiência profissional, desenvolvendo, assim, os setores técnicos, que são de importância estratégica vital pro futuro de qualquer país.
É, fodam-se os americanos. Isso aí. Vamos lá, sermos monoglotas. O mundo que aprenda nossa língua, se quiser compartilhar da nossa exuberante cultura.
Bom, mas desejoso de partilhar da exuberante cultura holandesa, comprei um livro chamado Dutch for dummies (Holandês para os sem-noção, em inglês) e me apliquei um pouco. Ontem fui até uma barraquinha de Haring. Haring é arenque, e é um hábito popular aqui comer o tal arenque cru com cebolas. É para os fortes, eu vos digo. Claro, hoje em dia é uma atração turística, então escolhi uma barraquinha mais afastada do centrão, na esperança de encontrar nederlands e não japoneses sorridentes tirando fotos. Parei e antes de chegar perto ou ser visto, observei. Haviam dois fregueses de pé, um homem e uma mulher que não se conheciam, pelo jeito. O homem comia seu haring e a mulher esperava o tio da barraquinha preparar o dela. O tio falou algo em holandês e os dois riram. Era essa mesma. Me aproximei e fiquei esperando minha vez. O tio olhou pra mim:
- Dag! Waarmee kan ik je helpen? (ou algo assim)
Coracão a milhão, arrisquei:
- Dag! Ik wil graag een haring. (tomara que ele me entenda, tomara que…)
- Een haring? Van de plank?
Ou algo assim. Eu sabia que o haring se come no prato ou no sanduba. Eu sei como é sanduba (broodje) e eu queria no prato (mais tradicional). Olhei o cartaz com os preços, plank, prato, achei que era isso que o homem estava oferecendo e aí concordei (ja, que pronuncia como iá. O jota tem som de i por aqui). E era mesmo! Fiquei lá, esperando e rezando pro homem não puxar papo comigo e me forçar a revelar a farsa que eu sou. Quando ficou pronto paguei, agradeci (dank je wel, mais informal, dank u wel, formal) e sai rapidinho. Oras, matutei eu comendo meu arenque cru com cebola, eles acham que podem ficar fazendo piada de mim sem eu notar?! Pois não por muito tempo… Ik spreek, jij spreekt, hij spreekt…
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A língua que parece do outro mundo e impossível de falar a primeira vista, vai se tornando mais familiar com o tempo e já não se tem mais a sensação de que seja tão impossível assim.
what som the u?
oba….sinto cheiro de livro novo
You like to eat raw herring?
Ja, Nei, het is lekker!
has haftas ardendoen emorroidas hiden
Com tantas palavras faladas do fundo da garganta, todo mundo ai deve ter a voz do Max Cavaleira, não? rs rs rs
Quanto tempo voces vao ficar ai?
Sabe Dude, seu blog me fez pensar … Vc ta na holanda, eu moro no brasil, e interajo mais com vc do que co m inha mae … o que é a globalizacao, nao é mesmo???
Ingles aí se aprende na escola mesmo, mesmo?
nao so aprendem como nao entende como que é possivel ensinarem na escola aqui e a gente nao aprender
uma brasileira aqui perguntou pro holandes essa mesma exata pergunta q vc fez… “mas vcs aprendem mesmo na escola?”e o cara ficou meio ofendido… como assim!? ai ela explicou q aqui a gente tem mas nao aprende, ele nao entendia… mas se foi ensinado, como nao se aprende? do que voce esta falando?
suspiro.
Muita risada (ateh chorei)…. Muito bom esta historia !
Eh.. viver em outro pais nao eh facil…. Pagamos muitos micos.. todos os dias !
Beijinhos e se cuidam !
Oi..
Na verdade nao sei que quero da vida ,
estou visitando amsterdam e gostaria de saber sobre alguns cursos quie a cidade oferece..
nossa amei ler a sua materia sobre amsterdam. bom eu estou no incrivel dilema com meu noivo.eu sou brasileira e ele eh welsh(pais de gales)desculpe pelo().mas eh por que pouca gente conhece esse pais,mas sei q vc deve conhecer claro!enfim entao vamos nos casar dia 22 de novembro de 2008.e estamos pensando em passar a lua de mel em amsterdam.mas eu prefiria veneza na italia.pois enfim decidir vim no google pesquisar sobre esse lugar e o que tem pra fazer la.
adorei suas dicas e agora fico mas na duvida ainda por ter dois maravilhosos lugares pra conhecer.bjs e abracos…
luana conceicao evans.
@luana:
olá, fico muito feliz que tenha gostado de nosso blog. Volte sempre que quiser
Tenho certeza de que irá se divertir tanto em Amsterdam quanto em Veneza. Parabéns e muitas felicidades pra você e pro seu noivo!