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O bazar é legal, mas a Catedral é impressionante

por Daniduc em 15/04/2009

Andando pelas ruinhas, perdido olhando no mapa, não podíamos estar longe da maior atração turística de Milão, tanto literal quanto simbolicamente. Il Duomo di Milano, A catedral de Milão, estava perto, e eu estava curioso. Quer dizer, uma catedral é uma catedral, mas eu só tinha visto a da Sé, em Sampa. Catedrais européias são famosas.

Viramos a esquina, e a ruazinha estreita e despretensiosa desembocou na…

Catedral de Milão.

É díficil explicar o impacto que aquilo teve. Eu não estava esperando, eu não estava preparado pra Il Duomo de Milano. Meu queixo caiu, eu fiquei paralizado, no meio do movimento, olhando pra cima e depois de algum esforço e tempo consegui dizer, no auge da minha expressividade e criatividade:

- Uou. Caralho… UOU!

Eu nem vou tentar descrever – gente muito melhor do que eu o fez (Mark Twain sendo apenas um), mas eu vou te dizer um lance: esqueça, desconsidere as fotos e desenhos – eles são outro departamento. São legais, e são bonitos, mas são maquetes comparadas à cidade. Se é que me entendem.

Depois do Duomo de Milão eu fiquei meio fascinado por outras catedrais. Vi muitas outras, e ela nunca deixam de me impressionar. O que mais me move não é o tamanho, a imponência da obra, mas o tempo que muitas delas levam pra ficar prontas. A de Milão começou a ser construída em 1386 e demorou seiscentos e vinte e um anos pra ficar pronta. Seiscentos. E vinte. E um. Anos!

Muitas obras são antigas, e muitas obras demoraram bastante tempo, mas o lance com as catedrais é que elas são iniciadas por pessoas que sabem que não verão seu fim. Nem elas, nem a próxima geração. Nem a próxima. Nem a próxima.

Nem a próxima.

De fato, quando se inicia uma obra desse porte, não dá pra ter certeza de que, ao seu final, ainda existirá o seu país. Ou mesmo a sua cidade, ou o mundo. Ou a sua religião! Houve catedrais que deixaram de ser católicas e passaram a ser Protestantes. O Panteão foi construído como templo pagão pra Roma antiga, ao longo de uns 150 anos, e quinhentos anos depois não existia mais Império Romano, o paganismo dera lugar ao Catolicisimo como religião predominante na Europa, e o Panteão foi doado à Igreja Católica, e é um templo católico em uso até hoje!

Cada geração vem, e maioria delas, a maioria absoluta, ao longo de séculos, não viu o início e não verá o fim, mas mesmo assim trabalha pra completar algo monumental, unidos em um propósito comum, confiando que a próxima geração continuará o trabalho, até que eventualmente uma delas no futuro dará significado a isto tudo, completando a obra, nem sempre (ou melhor: quase nunca) da maneira pensada ou imaginada por quem iniciou, mas isso não é importante, na verdade, é parte da beleza disso tudo, cada geração alterar e dar sua interpretação, um tijolo por vez, para formar uma obra conjunta da qual a maioria de seus construtores não tem idéia de como será.

Não é que as catedrais sejam antigas – a Pirâmide de Giza foi feita em 2560 antes de Cristo. Mas ela foi feita em apenas uma geração. Não é que elas tenham sido construídas ao longo de gerações – a cidade de Amsterdam é um intricado complexo de canais, numa obra de engenharia impressionante construída ao longo de uns bons 700 anos. Mas cada geração fez o que precisou pra satisfazer suas necessidades imediatas, tendo utilidade imediata, podendo ser ali mesmo o fim da obra toda, a qualquer momento. As catedrais são um esforço concentrado em um fim, algo que só terá sentido pleno quando terminado, anos no futuro. Você trabalha não pra você, não pro seu uso, mas pro futuro, pra pessoas e um mundo que não se tem a menor possibilidade de imaginar como será (se erram previsões pro ano que vem!). E caso dali a quatro gerações, o que não é muito tempo na construção de uma catedral, mas é na vida humana, ninguém mais der andamento àquilo tudo? E se explodir uma guerra? E se vier um terremoto e destruír tudo antes, bem antes do fim? E se acabar o dinheiro? E se?

Não importa, o futuro ninguém sabe, e trabalha-se no presente, e pro futuro resta apenas… esperança. E essa mensagem é, mais do que religiosa, profundamente humana. Porque religiões variam, mudam, surgem e se extinguem, mas todas têm algo em comum: são seguidas por humanos, e se há algo que nos une, algo que nos define, esperança no futuro é certamente parte disso.

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Daniduc, o autor do texto, tem trinta e tantos anos, é escritor e mora na Holanda: de novembro de 2007 a abril de 2010 em Amsterdam e atualmente em Haia (Den Haag para os íntimos). Escreve, fotografa e ilustra o Ducs Amsterdam. Possui também um portfolio on-line pra suas fotos e ilustrações.

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{ 11 comentários… leia abaixo ou deixe um }

Carol 16/04/2009 às 04:17

Oi!

Bacana o post.

Essa é a sensação embasbacante (e mais embasbacante ainda pela megalomania arrogante da coisa, algo meio Babel, mas por isso mesmo fascinante) da Sagrada Família de Barcelona. Que não foi concluída e, segundo comentam e eu gosto de acreditar, *não é* para ser concluída. É para ficar sempre lá, em construção, visando alcançar um projeto quase que humanamente impossível.

Dois meta-comentários:

Esta barra branca da direita com todos os links está interferindo com a caixa de texto. A última palavra de cada linha à direita eu não consigo enxergar. Já mudei o zoom e o tamanho da janela e continua igual.

E ah, seu texto está tão lindo… Corrije aquele “Houveram catedrais”. É “houve”.

Beijos.

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daniduc 16/04/2009 às 13:50

Oi Carol, brigado pelo comentario – a correcao esta apliacada (awn… ups?). Quanto a barra lateral, nao consigo reproduzir o erro, entao nao tenho como diagnosticar e testar se resolveu. Que browser vc esta usando? Qual sua resolucao de tela? Vc esta usando monitor wide screen?

Em viagem conexao internet é sempre algo incerto, e nao estou no meu micro agora (nota-se pela falta de diversos acentos), entao nao sei se vou conseguir consertar esse erro antes de voltar pra AMS. Mas se vc puder mandar os dados, eles ficam aqui guardadinhos e assim que conseguir eu arrumo isso.

Catedrais: eu vi a Sagrada Familia em Barcelona (apesar dos 10E de entrada), também, é impressionante. Mas o que eu pensei foi um pouco diferente, fiquei admirando como eu tive o privilégio de ver uma catedral num estado em que ela nunca mais estará. Quando for concluída, ela ficará de um jeito acabado, e o que eu vi estará perdido. Catedrais, bem, elas me fascinam :)

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Carol 16/04/2009 às 17:53

Ah, não é um defeito terrível, não. Depois do comentário publicado, ele encaixa direitinho. O lance é antes. Agora não está interferindo porque o menu da direita já chegou ao fim na altura do seu comentário. A sobreposição come uns 5 caracteres do lado direito da caixa de texto.

Estou com Firefox 3, Windows, monitor widescreen.

Quando eu estive na Europa o Euro não existia ainda, heheh

Não lembro há quanto tempo estão construindo a Sagrada Família. Quando eu estive lá, em 96, não tinha nada no meio, onde iria a torre principal. Só as outras 8. E o projeto é uma coisa descomunal. Uma das histórias era de que o Gaudí projetou algo quase impossível de se executar. Hoje tecnologia não é o problema, mas não sei se estão avançando muito. Acho improvável que na minha vida eu veja o troço todo pronto, então nem vou me preocupar com isso :)

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Carol 16/04/2009 às 18:12

Ah! Dei a volta na Sagrada Família usando o Google Street View! Que legal!

É, no meio tem mais coisas do que quando eu estive. Acho que a nave principal já está construída. Quando eu fui tinha uma capela, mas boa parte do espaço era mais o canteiro de obras. Mas ainda não tem muita cara de que vai subir a torre-mãe ali no meio.

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daniduc 16/04/2009 às 18:30

Pois, se nao me falha a memoria ela esta sendo construida desde os anos 1880, e a conclusao esta prevista pros anos 2020. 140 anos, 5 minutos na escala de tempo das catedrais hehehe :) Mas a graca delas é justamente essa… vai-se fazendo, sem pressa, geracao em cima de geracao.

Ainda esta um verdadeiro canteiro de obras, mas já é *bem* incrível. Auto-lembrete: subir as fotos da Sagrada Familia de Barcelona.

Menu: vou mudei um treco, me diga se melhorou :) (brigado!!)

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Ida 17/04/2009 às 15:39

Eu não pretendo viajar para a Europa. Mas DucsAmsterdam são meus personagens prediletos, posso “ver” o impacto do Daniduc dobrando a esquina e se deparando com “Il Duomo de Milano”. Fantástico! Mais do que uma sensação embasbacante, posso sentir a reformulação que temos de fazer quando nos deparamos com outras culturas, outros valores diferentes dos nossos.
No final do texto a resposta para a pergunta sobre o que temos em comum, apesar de pertencermos a outras culturas ou outras épocas:
“se há algo que nos une, algo que nos define, esperança no futuro é certamente parte disso.” O post está além do bacana, transcende!

I’m so sorry, mas eu pulo (às xz) a parte de serviços do blog. Mas o blog é meu livro de viagens preferido!

Responder

Kfuri 17/04/2009 às 16:02

Realmente não sabia da duração dessas obras.. 600 anos numa construção é bizarro, não vejo a hora de me deparar com um monstro desses.

abs

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daniduc 17/04/2009 às 21:08

@Ida – hey, quem sabe nao sai a viagem pela Europa (e o livro de viagens? ;) Brigado pelos elogios :D :D

@Kfuri – É… impactante. Se vc for à de Milao, nao esqueca de subir no topo, especialmente se for um dia claro. Depois cotne como foi!

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Marcio Nel Cimatti 28/04/2009 às 16:04

Oi Duc,

Muito bom o blog, vou passar sempre por aqui para matar a saudade de Amsterdã.

Abração!

Marcio

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daniduc 28/04/2009 às 18:51

Oi MArcio! Bem-vindo! Por enquanto o blog está meio parado, devido à férias no Brasil (está difícil conseguir uma conexão internet…), mas assim que voltarmos retomo as atualizações e aí espero continuar merecendo a audiência :) Abraço

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Barts 11/05/2009 às 22:25

Então

Depois da catedral de Burgos e da de Leon, eu cheguei a de Santiago, que é, na minha opinião (que só viu essas) A UM catedral, a catedral para todas governar.

Ela iniciou a construção antes de 1100 e em 1800 e batatinha inda faltava uns arremates. Ao longo do tempo voce “vê” a mudança de estilo, as escadas inicialmente eram pedras, depois as pedras começaram a ser esculpidas, até ficar em placas de mármore. A gente vai vendo a tecnologia ir se desenvolvendo ao longo da construcao …

Alem disso, ela foi toda feita para ser uma fortaleza, para o caso de, em havendo uma invasão, as pessoas pudessem usar os telhados para guerra.

Outra coisa que me impressou: Havia um cemitério no segundo andar “pescou?” – fiquei com vontade de ir ao primeiro pra ver os caixões todos caídos …

Paguei 14 euros pra visitar os telhados, mas quer saber? Valeu a pena …

Vou procurar fotos do duomo, pra ver.. euf iquei apaixonada por catedrais europeias depois disso,s a be?

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