Este texto é uma adaptação do que enviei para o Viagem no tempo. É o mesmo, mas um pouco diferente, publicado revisado e, espero, melhorado. É sobre como foi a minha volta pro Brasil, seis meses depois de vir morar na Holanda. Morar fora do seu país te modifica, não há dúvidas, mas às vezes é preciso olhar pra trás pra perceber. Em outubro passado tive a oportunidade de fazer isto, quando voltei por duas semanas pro Brasil, pela primeira vez como visitante no meu país.
A volta pro Brasil já começou no avião, ainda em solo holandês, com os passageiros embarcando. Após seis meses praticamente só ouvindo pessoas falarem qualquer coisa menos português, estávamos de novo entendendo a briga do casal na poltrona na frente, a conversa besta sobre o namorado da amiga para a outra, os planos do que iremos fazer ao fim da viagem no corredor ao lado. De repente saímos de um mar de sons desconexos, onde apenas algumas palavras e expressões saltam como ilhas de compreensão, para um mundo do qual fazíamos parte. Entendíamos e poderíamos ser entendidos por desconhecidos. A pátria, amigos, é mais do que território.
Aqui cabe um parêntesis: erro mais comum de turista/imigrante é falar a sua língua no país estranho achando que está falando um dialeto nepalês extinto, e ninguém entenderá uma única palavra. E daí sai falando putaria, ou mal dos outros na cara deles, crente que ninguém está entendo picas. Claro, apenas pra descobrir do pior jeito que o Mané de narigão, você viu que ridículo, calha de ser um dos milhões de falantes do tal, cof, dialeto nepalês. Oh, as coisas que as pessoas falam quando acham que nõ estão sendo entendidas. Dica: quando falar em público, só diga coisas que você não se importa que o público saiba, não importa se você está no Zirigundistão e jure que seja o único falante de português em milhares de quilômetros.
Ao chegar ao Brasil mesmo, o que me chamou a atenção foi o cheiro da cidade. São Paulo é uma cidade grande, e tive bastante tempo pra me adaptar ao novo cheiro nas quatrocentas horas em que passei preso dentro de um carro indo do aeroporto pra casa. Havia me esquecido como é grande e como é difícil se locomover em Sampa. Tudo é longe. A Holanda é minúscula e é muito fácil se locomover por ela. A minha mobilidade é incrível aqui, mesmo não podendo, por motivos de saúde, dirigir. Ao voltar pro Brasil ela foi imediatamente reduzida, o que causa uma certa angústia à quem se acostumou a se mexer com eficiência.
O tamanho absurdo da cidade com mais habitantes do que a Holanda toda é algo impossível de ignorar. Ela é tão grande que cria um universo em si. E submergir nesse ritmo tão diferente, tão mais acelerado, depois de um bom tempo vivendo em outra batida é algo que demora um pouco pra absorver. São Paulo é como um país à parte, e a sua esfera de influência na mentalidade das pessoas é marcante. É preciso sair dessa esfera de influência para perceber o quão forte ela é. São Paulo tem um ruído constante de fundo (não só literal, que tem, mas também figurado, algo na visão, no pensamento das pessoas), que acaba sendo incorporado ao seu subconsciente. Quando saímos, e o ruído para, percebemos que há algo de diferente, mas demora pra entender o que é. E ao voltarmos, demora um pouco pra nos acostumarmos com ele de novo, até ser incorporado novamente ao subconsciente, e então entrarmos naquela batida – e em Sampa ou você entra na batida ou é atropelado por ela.
Há as pequenas vantagens, como café decente com pão de queijo, sushi barato, médicos que falam a sua língua (a sua língua é um luxo só apreciado quando você é privado dele), e amigos, que tanta falta fazem. Certas amizades não se constroem em seis meses, ou em seis anos. Há que se ter uma história juntos, passar por certos perrengues, experiências, aventuras. E esses laços fazem uma falta tremenda. Certas coisas é preciso compartilhar, e por mais compreensiva que a Carla (minha esposa) seja, não é a mesma coisa falar de qual das amigas dela é mais gostos… hã… de física quântica com ela do que com o Érre ou o Fred, amigos de uma vida. Entende? Eles certamente sim.
Pequenos hábitos demoram a voltar. Não jogar o papel na privada, mas no cesto. Não abrir a torneira e beber água limpa, de qualidade, geladinha. Andar olhando por trás do ombro o tempo todo. Dizer “desculpe” em vez de “sorry” quando esbarra em alguém. Eles demoram um tico, mas voltam, e como todo hábito, quando voltam é como se nunca houvessem partido. Voltar para o seu país, é como voltar para a casa dos seus pais, depois de viver anos fora (casado ou não). Tudo é estranhamente familiar, e familiarmente estranho, mas depois de uns dias, você está ajustado, pois foi ali e assim que você foi criado, e queira ou não isso é parte de quem você é. Você pode correr o mundo, mas sempre haverá um canto dessa casa pra você e ela sempre terá um canto dentro de você também, mesmo que você tenha crescido. E, acreditem em mim, ao morar fora, você irá crescer – mesmo que aquele garoto de dez anos que você foi ainda no fundo seja você, você nunca mais será ele. Seu mundo ficou maior, a experiência te modificou irremediavelmente, e as marcas serão suas pra sempre. E se isso não é motivo suficiente pra dizer “valeu a pena”, eu realmente não sei o que seria.
(PS. Pra quem sentiu falta do trecho sobre a baderna no avião, ela está no seu post original, escrito na ocasião.)
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{ 16 comentários… leia abaixo ou deixe um }
Está muito bem escrito, parabéns!
Uma pergunta, hoje vocês se sentem mais Holandeses ou Brasileiros?
Oi Pablo, valeu!
Eu me sinto e sou totalmente brasileiro. Não há como a Holanda, na qual moro há apenas 11 meses (sem contar mais três meses que passei aqui como turista), definir minha identidade cultural. Sou brasileiro morando na Holanda, não há qualquer dúvida quanto a isso.
Oi Ducs!!
Gostei do texto! Daqui a uns 6 meses eu volto pro Brasil e to ansiosa com o choque cultural que vou ter… a história que corre entre as au pairs (pois é, sou o-pé) é que quando elas voltam não se encaixam mais… isso que só passam um ano e aqui elas tinham um emprego que dia sim dia não dá vontade de sair correndo (crianças holandesas são muito mimadas).
Moro em Haarlem, pertinho de vcs (sou irmã da Sarah namorada do Badá irmão do… ah vcs se conhecem né…) Vamos se encontrar algum dia desses pra comer ou algo assim… qualquer coisa menos boerenkool.
Beijos!
Lissa
Oi Lissa,
Eu imagino a ansiedade pra voltar e acredito que no começo principalmente deve ser difícil a readaptação. Mas também eu tendo sempre a acreditar que nada é determinado e sem volta e que sempre temos escolhas. Se por acaso não readaptar e preferir o estilo de vida que se tem aqui e quiser voltar para Holanda é planejar e batalhar pra conseguir voltar num outro esquema.
De qualquer maneira, voltando ou não, o que se aprende e o quanto se cresce numa experiência de morar em outro país vale muito a pena.
Nossa, vc tá pertinho mesmo.
O Haarlem é 15 min da Central Station de Amsterdam. Convite aceito! Vamos marcar sim! E fechado, sem boerenkol. Aliás, vc que tem um contato mais próximo com os Holandeses, eles comem muito boerenkol mesmo?
Vamos combinar por email! Conhecemos alguns restaurantes em Amsterdam e se preferir no Haarlem pode ser também.
Beijos,
Oi Lissa:
Hey, legal que vc curtiu o texto!
Qdo vc voltar, escreva como foi no seu caso! Aliás, seu blog está devidamente linkado e assinado
Conhecemos a Sarah sim –
Como disse a Carla, a gente combina o encontro por mail! Bjs!
Voltei para o Brasil em maio do ano passado, depois de 2 anos na Holanda. Compartilhei muitas das sensações que você descreve.
Estranhei muita coisa e me deliciei com outras tantas. Odiei o trânsito e o comportamento de algumas pessoas na rua. Ao mesmo tempo, amei ter um garçom apressadinho, às voltas na minha mesa e o sorrisos espontâneos de outras pessoas na rua. Me acabei de comer comida japonesa. Tomei cerveja geladíssima na praia em Salvador, debaixo de um sol escaldante e num copo bem pequeninho. Ah e tantas outras dores e delícias do retorno de um expatriado.
Gostei do texto!
Oi Ducs!
Legal o texto Dani. Eu não sei quanto a vocês, mas eu e a Carol nos sintimos perfeitamente adaptados no Canadá. Talve porque já estivéssemos cansados da baderna e do stress do Rio e do Brasil, nos adaptamos muito rápido: algumas semanas e já estávamos em casa, hehe. Para falar a verdade, algumas coisas nos ajudaram aqui. Primeiro, a lingua; o fato de não termos de aprender uma língua nova realmente ajuda. Entender tudo o que se passa a sua volta facilita a adaptação. Segundo, a vida aqui é muito semelhante ao que estamos acostumados a ver nos EUA e até no Brasil (em algumas coisas). A maioria das marcas e produtos são as mesmas; encontramos várias coisas iguais, até mesmo comidas e produtos, aos que encontrávamos no Brasil. Serviços são semelhantes; restaurantes “étnicos” também (italiano, japonês, chinês, e por a;i vai). Terceiro, a tecnologia ajuda. Ter Internet banda larga e skype permitem ue você se conecte e converse com todo o mundo quando a saudade aperta. Quarto, nunca formos brasileiros típicos (a Carol muito menos, hehe). Não curto praia, samba, ou cachaça. Das coisas que temos saudade do Brasil, ou compramos e encontramos aqui, ou curtimos quando viajamos. Então…
Viva o Canadá!
Aliás, ponto nada a ver: o que é “boerenkool”?
oops: nos sintimos? Será que já estou esquecendo o português? Espero não ficar igual àqueles brasileiros que passam um tempo no exterior e voltam falando com sotaque!
@ Bailandesa
Retornar como expatriado faz com que a gente sinta e perceba as coisas de uma maneira como nunca percebidas antes. Eu acho que a distância da terra natal faz com que valorizemos mais muitas coisas que não prestávamos atenção direito. Como foi bom comer um pastel com caldo de cana por exemplo. Coisa banal no dia a dia de um brasileiro, mas que vira a gente se delicia quando volta. E a água de coco geladinha tomada na praia no coco? Exatamente o que vc diz com a cerveja gelada no copo pequeno no maravilhoso sol de Salvador.
@ Gus
Nesse processo de adaptação nós passamos por algumas fases aqui, a do encantamento, da rejeição e por fim a do equilíbrio que creio seja a da adaptação, onde se ve as coisas de maneira mais realista, percebendo que aqui é um lugar com defeitos e qualidades como qualquer outro, que se ganha algumas coisas e se perde outras, mas que é assim em qualquer lugar do mundo. E então nos sentimos realmente vivendo aqui, com uma noção mais realista onde não achamos tudo perfeito nem tudo ruim. Quanto a língua realmente é algo que realmente faz parte da adaptação e como temos que adquiri-la ainda, sim, torna mais difícil. existe uma sensação de estranhesa que permea seu dia a dia. No quesito alimentação não tivemos nenhum problema, mesmo. Comemos em casa super bem, eu particularmente curto o processo de descobertas nessa área, e praticamente tudo o que comíamos no noss dia-a-dia no Brasil encontramos aqui. Acho que o fato de não sermos muito carnívoros ajudou nisso também, pois ouvimos reclamações da carne daqui pelos brasileiros que curtiam bem uma carninha.
Continuando no tema o boerenkool é um prato bem comum na Holanda que é um purê de batatas amassado com couve que eles comem acompanhado de salsicha/linguiça. O mesmo nome é usado pra couve em si.
Couve: http://nl.wikipedia.org/wiki/Boerenkool_(groente)
Prato: http://nl.wikipedia.org/wiki/Boerenkool_(gerecht)
Finalizando, não tenho nenhuma experiência no assunto mas acho português com sotaque difícil, ainda mais considerando nossos casos em que somos dois casais de brasileiros, o que nos mantém sempre falando português com outro falante nativo. Maaaas, muito provavelmente, falará um português arcaico, daqueles que seu sobrinho-neto vai estranhar quando você for pro Brasil. “Que português estranho que ele fala não?” hehehe
@Bailandesa acho que esse é o ponto, na verdade. Uma vez q vc sai ganha não só um novo mundo no país adotado, mas também no de origem, quando passa a vê-lo com outros olhos
@Gus Ainda estamos nos adaptando aqui. Mas essa é grande parte da graça, é todo um universo novo pra explorar, e mal começamos a brincar na beiradinha. Oba!
BTW, nós tbm nunca fomos brazileiros muito típicos
Oi Carla,
O Boerenkool parece… estranho. Nada contra os ingredientes separados, mas juntos num prato só? É bom?
Quanto à adaptação: também passamos por esse processo de achar tudo maravilhoso nos primeiros meses, e depois ajustar as expectativas à realidade. Mas no geral nunca tivemos um momento de rejeição ou desespero, do tipo: “PAra o mundo que eu quero descer!”. O fato de termos encontrado o Rafa e a Erika, e feito outros amigos por aqui, certamente contribuiu…
Para falar a verdade, o Rafa e a Erika foram meio que a salvação da lavoura, hehe…
Dani,
o engraçado dessa história de ser brasileiro típico é que parando para pensar, nenhum dos meus amigos no Brasil é um brasileiro típico. Não é a toa que todos eles estão vivendo no exterior agora… não sei se isso fez alguma diferença. Talvez se fôssemos muito apegados a algumas coisas, teríamos sofrido mais.
Só sinto falta de verdade de poucas coisas. Uma delas é a carne. Não que comamos muita carne – não comíamos no Brasil – mas aqui carne é caro e os cortes são horríveis. De resto, legumes e verduras de alta qualidade. Já tivemos experiências engraçadas, como por exemplo encontrar carambola no supermercado – vindo da Colômbia, vai entender, carambola é horrível -, mandioca, mamão papaya do Brasil…
Pena que as frutas tropicais sejam tão horríveis. Parte do problema é que elas devem ser tiradas ainda verdes, resfriadas, e mandadas para cá… no final, são todas lindas por fora, mas não têm gosto de nada. Acho que deve ser a mesma coisa por aí. Já as frutas locais são muito boas. No outono comemos cerejas frescas até passar mal… e todas as berries imagináveis…
Puta, Gus, às vezes eu paro pra pensar que eu não sou um *humano* típico. Será que marte libera visto?
Mas agora, de novo, ao ponto: vc nunca vai ter tudo em um único lugar. Tenm dois jeitos de encarar isso: ficar no lugar A só pensando nas coisas do B, e quando for pro B ficar morrendo de saudades das coisas do A, ou pode aproveitar o melhor de cada lugar quando estiver nele. Pois, o jeito é me afundar na cerveja belga, no stroopwafel, nos queijos e laticínios seensacionais, nas berries do verão aqui e na pizza, pão de queijo, sushi barato, coxinha do Frangó por lá… e sair ganhando sempre
Esse Boerenkool parece interessante, preciso experimentar (se, é claro, algum dia tiver a honra de poder aparecer em terras holandesas, e alguma alma piedosa topar mo apresentar).
E, daniduc, Física Quântica?? Isso você discute com a Lissa, que é física! Eu e o Fred queremos saber é das potranca!!!1
Érre, a apresentação já esta marcada, entao. Dezembrao, certo?
E, ah, tem razão, parece que a Eqüideocultura aqui na Holanda é bastante desenvolvida, e eles tem obtido bons resultados na área. Um assunto fascinante.
Olá chará Duc e CarlaDuc, vim pra Holanda pela primeira vez em abril de 2008 conhecer meu atual namorado ou melhor futuro marido, fiquei aqui uma semana … voltei ao Brasil e em agosto voltei pra Holanda de mala e cuia… e sabe que eu senti isso também a questão do cheiro das casas aqui … eu até esburrifava um pouco de perfume brasileiro pelos comodos pra me ajudar a acostumar melhor … e agora em julho vou visitar meus pais e amigos no Brasil por 3 semanas e como da outra vez que cheguei ao Brasil as 17:00 sai do aeroporto de São Paulo rumo a Americana ( interior) demorei 4 horas só dentro de São Paulo e agora vou num sábado … e não vejo a hora de comer coxinha .. ai que saudade…
Bom restinho de semana pra vcs
Olá! Legal saber da sua experiência
Boa divertimento com as comidas brasileiras, aproveite bem ai
Bom fim de semana procê.