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Bicicletas na Holanda: a teoria de andar na cidade

por Daniduc em 09/01/2009

DSC00969 Ah, quer dizer então que você já comprou sua bicicleta, já sabe deixar ela estacionada de modo a aumentar as chances dela continuar estacionada, então já está prontinho pra pegar a ciclovia, certo? Calma, pequeno gafanhoto, ainda é preciso ajustar alguns detalhes. Claro que é possível usar bicicleta como diversão ou esporte, como fazemos no Brasil, mas aqui, além disso, é um meio de transporte, um veículo do trânsito urbano tanto quanto carros, motos, ônibus e caminhão. Então, antes de sair pegando a ciclovia, é legal preparar a sua bike e conhecer um pouco da teoria de trânsito holandesa. Vamos lá?

Regule a sua bike

Antes de sequer subir no selim, vamos regular a bicicleta certinho pra sua altura. Isto (e pedalar direito, veja mais adiante) fará grande diferença no seu desempenho. Quando comprei a minha, ignorante de tudo, fui tentar lembrar como andava com as regulagens que vieram da loja. O banco estava muito baixo, assim como o guidão, e quando eu pedalava meu joelho vinha parar no queixo, e eu ia como num triciclo, nhec, nhec, nhec, a quinhentos metros por hora e estava morto depois de meia hora pedalando pra avançar duzentos e cinquenta metros.

O banco da bike deve estar de modo que você encoste somente a ponta dos pés no chão.  No chão, não no pedal. Quando você apóia o calcanhar no pedal na posição totalmente pra baixo, a sua perna não deve nem ficar muito esticada (o que pode causar lesões), nem muito flexionada. Teste algumas regulagens até achar uma que seja confortável pra você.

Dude

A altura do banco acho que está legal.

Com o banco regulado, regule o guidão. A regulagem do guidão depende do seu modelo e é pessoal. Não deixe ele muito alto, forçando a bacia, nem muito baixo, forçando braços. Teste até achar a sua. Depois disso, é pedalar:

Aprenda a pedalar

O ideal é pedalar com a ponta dos pés. Não muito na ponta, na altura dos dedos, mas um pouco mais pra trás, ainda antes da curva. Pedale com os pés paralelos ao chão, sem baixar o calcanhar. Essa posição do pé no pedal explica como é possível as holandesas conseguirem andar de bicicleta de salto alto, fato absolutamente comum e corriqueiro por aqui. Como elas conseguem pedalar de minissaia, segurando um guarda-chuva e mandando sms ao mesmo tempo permanece um mistério pra mim.

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Pedalando com a parte certa do pé

Atenção: estas dicas são gerais e dadas na melhor das intenções, mas não sou especialista. Cada pessoa é diferente, e estou indicando coisas que funcionaram para mim, para pedalar em bicicletas urbanas em cidades planas, ou seja, Amsterdam ;)

Quando comprei a bicicleta aqui em Amsterdam, fazia uns bons quinze anos que eu não pedalava. Olhando as ciclovias e os holandeses navegando por elas, não me animei a sair assim, de cara, conduzindo um veículo de propulsão animal pela via pública. Fui empurrando para casa (oh, a humilhação), e passei o dia seguinte dando voltinhas na quadra, pra em acostumar de novo com a magrela. Ainda mais que aqui é preciso dar sinal de mão quando vai se mudar de direção, e eu estava tão lastimavelmente desacostumado a pedalar que se eu tirasse uma das mãos do guidão, eu desequilibrava.

A teoria

Ah, mas você não sabia que tinha de dar sinal? Pois, bicicleta é um veículo como outro qualquer por aqui, e está sujeita à regras. Claro, você pode ignorar tudo e sair pedalando aleatoriamente com sua bike vermelha ou amarela com grandes sinais,  se espalhando por toda a ciclovia e empatando o trânsito sem perceber, enquanto grita aahs o ooohs e dá risadas de sua própria descordenação, e pára pra entender onde diabos a ciclovia que estava aqui até agora pouco foi parar, como a maioria dos turistas faz. Ou você pode ignorar tudo e sair andando da maneira mais rápida, direta e abusada possível, imune aos sinais de contra-mão, faróis vermelhos, áreas exclusivas de pedestres e outros pequenos aborrecimentos, como a maioria dos locais (de Amsterdam! protestariam alguns) faz. Mas saiba você que há uma legislação de trânsito que, sim, abrange bicicletas, e sim, você pode ser multado como qualquer motorista. A churumela de que você é apenas um turista pode  até ser que cole, (ou não), mas não é o fato dos nativos fazerem que torna a coisa bonita. Então, em favor da civilidade geral na cidade, da sua segurança e do seu bolso, vamos conhecer algumas destas regras, pelo menos na teoria que quase ninguém segue. Sobreviver à prática é outra história.

Equipamentos e roupas

A sua bicicleta tem de ter, obviamente, freios funcionando. Não ria, eu já não duvido de nada em Amsterdam. Além de freios, você precisa de uma luz branca dianteira e uma luz vermelha traseira. Em geral as bicicletas aqui vem com um dínamo pra ativar a luz dianteira, que a maioria dos locais não usa, porque ele põe uma certa carga extra nos pedais, e prefere um LED preso na roupa, mochila ou bike mesmo. Mesmo assim é bom ter o dínamo como reserva. Às vezes as pilhas acabam, esquece-se o LED, aí quem salva o dia, bem, a noite, é o dínamo.

Nacht fietsen

Outro ítem que deve constar em sua fiets é uma daquelas sinetinhas pra poder buzinar quando os turistas sem noção enfiam o pezão na ciclovia sem olhar (os locais usam também pra te tirar da frente deles enquanto te ultrapassam). Capacetes não são obrigatórios, até onde eu saiba. Aqui o povo pedala com a  roupa do dia a dia mesmo. O fato de andar de bicicleta não influencia o vestuário mais do que o fato de andar de carro influenciaria. Se o cara tá indo trampar de terno e pastinha, ele pedala assim mesmo. Mochilas são bem raras, o povo usa bolsa mesmo, ou sacolas do Alert Heijn. Capas de chuva também não são um sucesso nacional, sendo que o guarda-chuva chega a ser usado enquanto se pedala. Juro! Duvida?

Bicicleta e guarda-chuva

Falei procê (foto borrada e tremida porque eu mesmo tava em cima da bike quando tirei).

TÍPICO

Quantos elementos típicos de ciclistas de Amsterdam você acha nessa foto? Clique na foto e descubra.

Sacolas laterais não são, obviamente, obrigatórias, mas são uma mão na roda.

Comportamento

É, eu sei, olhando as ruas de Amsteradam você seria capaz de jurar que há multa pra quem não fala no celular nem leva alguém na garupa. Mas é o inverso. Pra virar dê um sinal com a mão avisando. Essa é uma regra que os locais respeitam a grande maioria das vezes. Não pare na ciclovia. Se precisar encostar, dê o sinal de mão e pare na calçada.

Onde andar

Amsterdam tem centenas de quilômetros de ciclovias, e você deve usá-las. Bicicletas não podem usar a rua caso ela tenha uma ciclovia (se não houver ciclovia a bicicleta pode usar a rua mantendo a direita). Há também mão e contra-mão e em alguns lugares as ciclovias ficam com mão dupla.

Mão e contramão

Ciclovia de mão dupla

Existem zonas e ruas exclusivas de pedestres. Elas costumam ser sinalizadas com uma placa circular de fundo azul com dois bonequinhos brancos representando um adulto de  mãos dadas com uma criança. O mesmo sinal em cinza, com três faixas cruzando, indicam o fim da zona exclusiva de pedestres.

Atropelamos pedestres

Fim da zona de pedestres

Algumas vezes a placa de pedestres fica logo acima de uma outra placa circular de fundo azul, com o desenho branco de bicicleta, mas com borda vermelha e uma faixa vermelha cruzando o símbolo, reforçando que bikes não são bem-vindas ali. Porém, se você vir logo abaixo da placa de área de pedestres uma placa escrito “Uitgezonderd” e aí o desenho de bicicleta, então a área é pra pedestre, mas pode ir de bicicleta. Uitgezonderd quer dizer “Exceto”,  e você irá ver essa palavra em diversas placas. Se você ler em algum lugar “fietsers afstappen” ou uma variante disso (brom- en fietsers afstappen), desmonte da bike – é o que está escrito (ciclistas, desmontem).

Placa na Holanda Fiets

"Ciclistas, desmontem"

Não ande em calçadas. Se subir na calçada, desmonte. E não ande em faixas de pedestres. Se precisar atravessar a rua numa faixa de pedestre, desmonte.

Os caminhos de bicicleta são indicados por uma placa azul com uma bicicleta em branco. Siga por eles.

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Isso é em Eindhoven.

Quando a rua for contramão, você encontrará um círculo com fundo vermelho e uma barra horizontal branca. Se estiver escrito embaixo o “uitgezonderd” você pode enfiar a bike naquela rua.

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Aqui não pode

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Aqui pode bicicleta

E sinal de mão única é uma placa de fundo azul, com uma seta branca. Com o uitgezonderd, espere bikes vindo na direção contrária.

Placa Trânsito Amsterdam

O farol

Farol, sinal, sinaleira, semáforo, não importa como você conhece, cuidado que aqui em Amsterdam ele provavelmente será ignorado. Tome cuidado que é permitido, tanto pra você quanto pros carros, virar à direita no farol vermelho, se estiver livre. Isso quer dizer que quando o sinal estiver vermelho você ainda pode ir pra direita (sem atropelar ninguém), mas também que quando você estiver indo reto em um cruzamento, com o farol aberto pra você, poderão vir carros da sua esquerda fazendo a conversão. Fique atento, você ainda está no direito de passagem, mas sabe como é…

Em diversos cruzamentos, as bicicletas tem um farol exclusivo pra elas. Eles é que mandam, no seu caso.

Vermelho para as bicicletas Agora verde

Note nas fotos acima (clique nelas pra ver grande) um poste  zebrado ao lado da ciclista. Lá tem um botão que ativa o farol de bicicletas. Aperte-o. Aperte de novo. Olhe pra todos os lados com cara de impaciente. Aperte de novo. Você está quase local já. Mas os locais mesmo… bem. Digamos que você irá ver diversas pessoas furando o farol, e vai se sentir uma besta quadrada esperando num farol sem ninguém à vista. Aí vai da consciência (do perigo) de cada um. Mas se resolver esperar, tome cuidado com aqueles que cortam pra furar, e tenha paciência com aqueles que não conseguiram cortar, mas queriam, e vão enfiar o dedo na campainha no segundo que o farol abrir. (“‘t is groene! It’s green, tourist!”)

Direito de passagem

Teoricamente, pelo que eu li, você deve dar passagem pra qualquer veículo vindo da sua direita, exceto trams, que sempre tem preferência. Ou seja, veículos vindos da sua esquerda devem te dar passagem. Na prática, a coisa não funciona bem assim. Na verdade, na prática não funciona nada assim, e há toda uma hierarquia não escrita de direito de passagem que ignora sumariamente essa teoria! Mas a prática de toda a teoria do artigo de hoje será assunto do próximo capítulo da saga das bicicletas em Amsterdam (artigos anteriores: A vida dos holandeses nas fietsen e Bicicletas na Holanda: como comprar e manter). Até lá.

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Daniduc, o autor do texto, tem trinta e tantos anos, é escritor e mora na Holanda: de novembro de 2007 a abril de 2010 em Amsterdam e atualmente em Haia (Den Haag para os íntimos). Escreve, fotografa e ilustra o Ducs Amsterdam. Possui também um portfolio on-line pra suas fotos e ilustrações.

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{ 4 comentários }

Bailandesa 10/01/2009 às 11:57

Amei, amei! Já fiz alguns posts para bicicleta no Tabuleiro ( http://bailandesa.zip.net) e esse é um dos que está na lista. Vai servir de inspiração!
Abraços

daniduc 15/01/2009 às 11:07

Legal que vc curtiu, Bailandesa! Vou ficar aguardando o seu post!

Rebeca 11/01/2009 às 16:46

Fico cada vez mais encantada com a Holanda…

daniduc 15/01/2009 às 11:07

A Holanda é mesmo encantadora, @Rebeca! :)

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