Todos sabem, menos eu antes de mudar pra cá, que Amsterdam é a cidade das bicicletas. Ah, ok, eu ouço seus protestos, outras cidades da Holanda, vocês também são a cidade das bicicletas, mas reconheçam: Amsterdam é um símbolo. A matemática é simples: Amsterdam é a maior cidade da Holanda, e quanto mais holandeses, mais bicicletas. Holandeses e bicicletas são indissolúveis. Amsterdam é um exemplo de sucesso no uso de magrelas no transporte urbano, e um dos maiores. O que é apenas utopia pra outras cidades é realidade corriqueira em Amsterdam. Aqui, bikes mandam, não pedem, e transportam a cidade sobre duas rodas aos sons de sinetinhas afastando os turistas incapazes de distinguir as ciclovias marrom avermelhado das ruas marrom escuro, os pobres!
Como toda realidade, ela difere um pouco da utopia - aqui, as ciclovias (e ruas) apresentam sua dose de armadilhas, perigos e desafios, e têm suas próprias regras, que diferem muito da teoria. Não entendam mal, Amsterdam é o paraíso das bikes, mas um paraíso terrestre, verdadeiro, humano. Aprender a sobreviver nele é uma arte que exige uma certa prática de nós, buitenlanders, não temos. Vamos dar um bico nessa prática.
Primeiro desafio: Forma física
Depois de reaprender a andar tudo de novo, ganhei confiança pra enfrentar as avenidas. Só pra tê-la destruída novamente ao ser ultrapassado por toda sorte de holandeses: velhinhas de 90 anos, menininhas de 6, guris de 11 fazendo embaixadinhas enquanto pedalam, pessoas com uma perna só, adolescentes pedalando com o namorado e o cachorro na garupa e pessoas andando a pé. Eu me esfalfava, e punha os bofes de fora, e mal saía do lugar. Era sempre eu o único a ofegar enquanto aproveitava a bem-vinda pausa dos faróis. Só pra ouvir um "'t's groene, tourist!" dos indignados holandeses que davam azar de ficar atrás de mim esperando o verde. Os 15 anos de sedentarismo bicicletal cobram seu preço. Os holandeses diziam, uma vez que você acha um ritmo confortável, você pode pedalar por horas sem cansar (o país dele sendo plano e todo o resto. Suponho que, quando distraídos, eles pedalem até mais ou menos a Alemanha, quando se dão conta de que estão ficando cansados... ah, é porque agora tem subidas.) Eu duvidava, cansado só de ouvir. Mas insisti, cobrindo no começo distâncias curtas, depois maiores, e maiores, e hoje até consigo ultrapassar garotinhas de 10 anos (quando elas estão distraídas). Não, mas sério, não desista. Veja se sua bike está bem regulada, e vá pela direita, tranqüilo, deixe os guris e suas embaixadinhas passar. Dia desses, estará pedalando na chuva, contra o vento, sem marchas, enquanto passa smsjes (tá, eu não mando sms).
Obstáculos
As ruas, avenidas e ciclovias em geral estão em bom estado, mas nem sempre. E nem sempre as que estão em bom estado estão vazias. é comum ver carros parados para "carga e descarga", ou indo estacionar, e impedindo a passagem. Algumas ciclovias ou ruas estão em obras, e outras, precisando de obras. E certamente, em algum momento da sua viagem, você terá de desviar de obstáculos, nem que estes obstáculos sejam turistas olhando pro outro lado, enquanto enfiam o pezão na via sem aviso prévio ou noção. Quando o fizer, cuidado! Sempre tem um holandês vindo te ultrapassar nesse preciso momento em que você precisa desviar. Sempre. Dê sinal, diminua, olhe se possível, antes de mudar, mesmo porque provavelmente você será o único fazendo isso.
Agora, o principal obstáculo é, de longe, o trilho de tram. Você sabe o que é um tram, certo? É um bonde. Ele anda sobre trilhos. E às vezes, você precisa cruzar estes trilhos - seja porque a ciclovia está em obras, seja porque um babac... alguém está com o carro parado na ciclovia, seja porque você está num cruzamento mesmo, e é o jeito. Qual o problema de cruzar trilhos de tram? Oras, trilhos de tram têm a espessura exata de zero UM (01) pneu de bicicleta - a sua. Ele encaixa perfeitamente, amiguinho, e se você estiver em velocidade e querendo ir proutro lado quando for cruzar o trilho e seu pneu fizer isso, é chão na certa, numa linda demonstração de vetores físicos, seu rosto sendo a resultante de bike mais trilho em direções diferentes. Tome cuidado, porque dói. Hã... ouvi dizer. Cof. Eu não saberia dizer em primeira e dolorosa mão.
Então quando for cruzar um trilho de tram, diminua, e ponha o pneu da sua magrela o mais perpendicular ao bandido possível.
Outros ciclistas
Holandês é um povo sossegado - menos na bike. Olha, não me entenda mal, eles são legais, mas bicicleta aqui é como carro na maioria das cidades do mundo. As pessoas estão usando a bike pra ir ou voltar de lugares, não à passeio. Elas estão atrasadas pro trampo, pra buscar o filho na escola, elas estão cansadas, distraídas, elas podem ter brigado com a namorada ou com o chefe, elas estão com um negócio urgente e com o horário do trem apertado e têm que chegar na estação logo. Elas trabalharam o dia inteiro, ou dormiram demais justo no dia da reunião importante. Com o agravante que ao fazer uma bike diminuir ou parar, você tira o equilíbrio do ciclista, forçando a por o pé no chão, e depois fazer mais força pra voltar a andar. Por isso, xingue um holandês, fale da mãe dele, pise no sapato azul de camurça dele, mas não, nunca, jamais, faça ele por o pé no chão contra a vontade durante uma bicicletada. Sim, rola algum stress às vezes. Fique calmo, seja cortês e paciente, ceda de vez em quando e tudo fluirá melhor. Fora isso, de vez em quando rola umas fechadas, ultrapassagens mais, digamos, enfáticas, e coisas assim.
Outro problema com os coleguinhas de duas rodas, é que esse negócio de mão e contra mão, sinais vermelhos, isso tudo é muito relativo. Jamais assuma que por ser a ciclovia de mão única não virá alguém na direção oposta. E se for a noite, em geral ccom a luz apagada, pra facilitar. Se parar no sinal vermelho, não se estresse com os locais que ficaram presos atrás de você e irão te pressionar pra sair logo que rolar uma ameaça de verde. E quando cruzar, fique sempre atento ao outro lado, mesmo que esteja verde procê. Ciclistas desatentos ao celular também têm de monte, preste atenção por eles. E cuidado com bikes carregando um carona na garupa - elas podem parar de repente em uma subida mais forte (é, ao contrário do que dizem as lendas, existem algumas subidas aqui. Em geral, pontes).
Motonetas, mobiletes, vespas
Se tem uma categoria de companheiros de ciclovia que eu dispenso, é a de companheiros motorizados. Na Holanda, motonetas, mobiletes e vespas podem pegar a ciclovia também, o que eu acho um erro, crasso. Não é uma questão de respirar o jato de fumaça exatamente na sua cara justamente quando se está fazendo um esforço. É perigoso. Eles abusam, surgindo de repente, ultrapassando tirando finas, passando zunindo entre duas bikes, algumas vezes vindo do nada na contramão! Olha, se você tem um motor, fora da ciclovia - essa é minha opinião. Vá correr na rua. Ou melhor, não vá correr em lugar algum. Ou melhor ainda, larga de ser preguiçoso, solte esse acelerador e vá pedalar uma linda, limpa, silenciosa, saudável e econômica bicicleta! Se não, e se insistir em usar a ciclovia, por favor, pegue leve, nunca use a contra-mão e vá na velocidade de uma bike. Quer ir mais rápido? A rua é a serventia da cidade. Força lá, que a gente faz força no pedal aqui.
Pela órdi - a hierarquia de preferências
A lei diz, tanto quando consegui descobrir, que você deve dar passagem pra qualquer veículo vindo da sua direita, exceto trams, que sempre tem a preferencial. No dia a dia, a coisa não funciona bem assim. A minha teoria, baseada em evidências coletadas em campo diz o seguinte:
Bikes teoricamente cedem a vez pra trams, mas depende da hora e do condutor do tram. Bikes sempre ganham a vez de pedestres. Ônibus em geral perde a vez pra trams e bikes, mas também depende do motorista. Carros perdem pra todos. E todos, todos perdem pra taxis, especialmente os alucinados que dirigem a todo vapor com música eletrônica no último volume. Lei de trânsito de Amsterdam, conforme enunciada por um nativo: taxi sempre tem preferência.
Quando em uma rotatória, na ciclovia, a bike sempre tem a vez, na prática.
No geral, vale o bom senso e a prudência.
E lembrem-se, amigos: mesmo com toda essas confusões, uma cidade que se move sobre bikes...
Outros posts sobre bicicletas na Holanda:
- Bicicletas na Holanda: como comprar (e manter)
- Fietsen all around
- Bicicletas na Holanda: a teoria de andar na cidade
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Oi Ducs, quando cheguei aqui, tive um treinamento ciclístico num lugar muito especial: Terschelling. Lá me ambientei com o camelo. Depois comecei a me adapatar na cidade. Depois de alguns domingos pedalando em ruas vazias, comecei a me aventurar pelos dias normais. Hoje, ainda não uso guarda-chuva ou passo sms’s, mas já estou bem confortável.
Ah, além dos “motorizados”, temos que tomar cuidado com as mamães,as bakfiets e a sua prole. Além de tomar toda a ciclovia, a atenção da mamãe está voltada para o grupo.
Adorei quando vc tocou nos pontos do sinais de transito. Gente, quanta pressa!
Parabéns pelo post.
Pois, Bailandesa, conosco foi no jeito difícil. mas deu tudo certo
As bakfiets realmente são espaçosas – e os taxi-bikes de Amsterdam, apesar de beeeem menor número, tbm pentelham.
Brigado! Legal que vc curtiu!
Quando comprei minha bike, já fui lançado na via e me bati de frente com um holandês mal-humorado (claro, qq um ficaria). Mas continuei e de noite já estava saindo de bike. Eu morava no centro, então pequenas ladeiras eram comuns pra mim, por causa das pontes dos canais.
Mesmo andando bem na cidade, atender o celular ainda era uma missão impossível pra mim.
Ah, e concordo que deveria ser proibido esses veículos motorizados. É um absurdo. Fora que aqueles carrinhos também fazem uso da ciclovia.
Hah, admirei!
É verdade, tem ainda os tais carrinhos. Mencionei eles noutro post, mas nesse faltou.
Muito interessante esse tráfego de bicicletas, para quem não tá acostumado a pedalar no Brasil e começa ai pode parecer bem complicado, mas para quem pedala todo dia no meio do trânsito de uma capital qualquer aqui, isso ai parece o paraíso mesmo!
Quero fazer uma cicloviagem pela Holanda. Pode me dar umas dicas de roteiro? Penso em pedalar 800 a 1.000 km. Qual a melhor época?Devo levar a minha bike, ou seria mais fácil alugá-la?
Existe algum site para baixar as rotas?
Percorrí a República Tcheca consultando mapa detalhado que comprei em uma loja de mapas. Acha necessário?
Aguardo dicas,
bjs,
Raquel
Oi Raquel. Tem muito recurso de roteiro e pra calcular rota de bike, mas… em holandês! Existe a Fietsbond (;liga de ciclismo) da Holanda, eles fazem um execelente trabalho. Se quiser arriscar: http://www.fietsersbond.nl/fietsersbond-routeplanner
Existem mapas a venda aqui também, pode ser legal ter, eles nao custam caro.
A melhor época eu acho abril. Boa viagem
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