(Este é um post onde desabalfo sobre minha experiência de aprender o holandês. Se você está apenas atrás de lugares pra estudar holandês, veja estas daus respostas no nosso FAQ: Onde posso fazer curso de holandês pela internet? e Onde acho cursos de holandês? Qual o melhor? Se quiser ler meu post, bem, brigado. espero que goste!)
Os holandeses fazem questão que você fale a língua deles caso você decida deixar a turma dos turistas e resolva se misturar com os nativos na muvuca de bicicletas e Albert Heijns de uma maneira um pouco mais permanente. Pra alguns candidatos a holandeses honorários é exigida uma prova e/ou um curso pra demonstrar/adquirir o domínio do idioma ao ponto de poder dizer “holandês não é só alemão com algumas palavras roubadas do francês e do inglês, é uma língua totalmente diferente” com a cara limpa, sem rir e acreditando.
Mas o engraçado (ou trágico) é que essa questão toda de que os novos companheiros de ciclovia aprendam o linguajar local é acompanhada de uma estranha recusa de falar o linguajar local com os novos companheiros de ciclovia. É assim, eles acham uma gracinha se você é turista e está fazendo um esforço, aprendeu a dizer “dank u wel” e “goedemorgen”. Agora, se eles notam que você não é holandês (por qualquer motivo, não precisa ser seu sotaque estranho. Eles podem decidir que você é de fora antes de você ter a chance de abrir a boca) eles imediatamente começam a falar no seu idioma nativo, caso seja uma das 12 línguas que por acaso eles falam, e sim, já encontrei um ou outro holandês falando português, em geral acompanhado de uma explicação singela como “estive no Brasil 5 dias, aprendi um pouco nessa ocasião. Aliás, é ‘nessa’ ou ‘nesta’ ocasião que se diz? Nunca consegui decorar quando se usa um ou outro…” Ou, caso a sua não seja uma das 12 línguas, revertem pro inglês, que é o default. E não adianta mais você falar no mais perfeito e irretocável sotaque amsterdanês, eles continuam obstinadamente te respondendo em qualquer língua que não seja a deles.
Algumas pessoas recomendam os aspirantes a Nederlands spreker a responderem que não falam inglês e que sua língua nativa é um dialeto nepalês extinto há 1500 anos, então ou o holandês se conforma ou não tem comunicação. Eu, entretanto, descobri um esquema muito mais eficiente pra forçar os holandeses a falar holandês comigo: comprei uma camiseta do Ajax. Ok, primeira lição de holandês: o jota se fala quase sempre como um i. Quase sempre, pelamor, não vai sair aplicando essa regra indiscriminadamente que vai dar merda e aí que os holandeses vão ter certeza de que você não é falante nativo e não te restará alternativas a não ser ler sozinho livros da Miffy pra ter algum contato com a língua. Então, dizia eu, fala-se Aiáks, e se você tem uma camiseta deles é bem difícil do cara se convencer que você não é neerlandês. Em uma ocasião, buscando um determinado livro que não encontrei nas prateleiras da livraria, fui até o caixa e pedi, por favor, se tinha algum exemplar no estabelecimento. Em inglês, que meu holandês ainda não está tão bom pra fazer perguntas mais complexas do que “um arenque faz favor”. Estava eu com o referido manto do time de Amsterdam. O homem procurou o livro, perguntou, não achou e me deu uma longa e elaborada resposta em holandês. Pegou-me de surpresa, já que se eles revertem pro inglês quando te perguntam “você quer uma sacola” e você gasta mais que 1 segundo pra decidir se quer ou põe o treco na sua mochila, imagina eu perguntando direto coisas em inglês pro cara. Respondi com um educado “hein?”. Ele me olhou e repetiu, palavra por palavra, na mesma velocidade a elaborada resposta… em holandês. Dessa vez eu tava com a guarda alta e entendi palavras soltas como “vai chegar” e “sexta-feira”. Agradeci, em português, já que aparentemente não fazia qualquer diferença a língua que eu usava, e concluí com terror supersticioso que a camiseta do Aiáks realmente tem poderes mágicos. Ah, camiseta da seleção holandesa também funciona, a não ser que você vá no Hard Rock Café Amsterdam, caso em que nem o passaporte holandês, tamancos de madeira nos pés e uma tatuagem de um moinho de vento na testa combinados funcionariam, porque desconfio que nenhuma garçonete lá fala outra língua que não o inglês. Enfim.
Mas ao tomar contato com o linguajar nativo logo se nota uma preferência por palavras gigantescas atiradas a esmo em transeuntes desavisados. Nomes de rua tem quase o tamanho da rua (sendo o nome muito grande e as ruas muito pequenas aqui), mas tudo fica mais fácil quando você se liga que em holandês eles adoram juntar palavras. Acho que o equivalente holandês do teclado ABNT deve vir sem barra de espaço. Depois que você aprende esse truque todo um mundo novo se abre. Por exemplo, Kinderdagverblijf é um pesadelo, mas aí você aplica a técnica ninja e começa a dissecar o treco: Kinder é criança, dag é dia, verblijf é estadia. Estadia… da criança… durante o dia… CRECHE! É uma p%&@# de uma creche! Ah bom! É que eles não querem complicar, sabe, e em vez de ficar inventando palavras novas, que é mais coisa pra decorar, como o horroroso creche, eles preferem um singelo Kinderdagverblijf, muito mais fácil! Não esquece que g pronuncia RR, v se pronuncia como f e ij pronuncia éi. Boa sorte!
Ao apresentar essas minhas teorias a um amigo holandês (hei, ele nos convidou pra ir na casa dele, isso é tipo praticamente família prum holandês, que acha que aperto de mão é intimidade demais – sério!) fiquei tirando um sarro um tempo dessa mania holandesa de grudar palavras. Ele riu junto, holandês adora tirar sarro de tudo, inclusive deles mesmos – de verdade! Tem um livro aqui, escrito por dois americanos (o que já é um ponto contra, na visão de um holandês) que se dedica a sacanear os holandeses por 300 páginas. Sacaneam tudo da Holanda, da língua até as bicicletas. E o que aconteceu? Foi banido das lojas? O primeiro-ministro se manifestou condenando o preconceito do livro? Houve exemplares queimados em praça pública? Não, virou um best seller nacional, eles adoram, traduziram pro holandês, tem edição todo ano, os autores viraram celebridades locais por zoar os holandeses. Impressive. Mas enfim, contava eu que sacaneei o holandês por um tempo por conta da mania de juntar palavra e disse que no Brasil a gente sabia usar a barra de espaço normalmente, e tal.
Bueno, um tempo depois eu dei pra ele uma cachaça, legítima brasileira, ele adorou. Pediu pra eu ir lendo e traduzindo o rótulo pra ele, afinal ele só fala sete línguas, coitado, nada mais justo que aprender mais uma. Então, fui lá lendo e traduzindo, até chegar na palavra Aguardente. Aguardente de Cana.
Pausa.
- O que isso quer dizer?
- Hã? Quer dizer cachaça.
- Agua… parece com o italiano “acqua” (o puto fala italiano). Tem a ver?
- Hã… mais ou menos…
- Water-ardente?
- Pro inferno, holandês!
- É uma palavra composta de outras, não é?
- Mumblesgrumbles… talvez…
- Assim, juntando duas palavras pra formar uma terceira?
- MUMBLES!
Holandeses… eles podem levar fama por serem morrinhas (no sentido 14 listado no Houaiss) e “excessivamente francos” (i.e. rudes), mas tem que gostar de um povo que sabe tirar sarro de si mesmo – e dos outros.
Serviço
Se você leu até aqui e tudo o que você queria era começar a aprender holandês, aqui está a recompensa
1. Gramática holandesa – http://www.dutchgrammar.com/pt/index.php?n=Grammar.DutchGrammar
2. Como se pronuncia uma palavra em holandês:
http://www.acapela-group.com/text-to-speech-interactive-demo.html
Digite a palavra na caixa de texto, escolha Dutch no menu em cima da caixa e clique em Play it!
3. Digital dialects: http://digitaldialects.com/Dutch.htm
4. Lições de holandês a partir do zero. Precisa registro, mas é grátis. http://www.taalklas.nl/
5. Dicionário holandês-holandês: http://www.vandale.nl/vandale/opzoeken/woordenboek/
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Dude em plena forma. Magnífica crônica, com aquele humor ao mesmo tempo fino e arrasador. Uma valanche de preciosidades. Maravilha.
Adorei este post!
Nos poucos dias que passei na Alemanha fiquei extremamente nervosa com essa mania de juntarem 7 palavras em uma. E a capacidade que eles têm de pronunciar esses trecos sem respirar no meio. E realmente, eles têm uns 30 vocábulos que se combinam para gerar sentidos infinitos, o que torna a língua relativamente fácil de compreender (quando se tem tempo para dissecar as palavras) mas altamente aleatória na hora de produzir uma frase nela.
Minha mãe tem uma anedota boa: ela estava desbravando uma cidadezinha alemã enquanto meu pai trabalhava. “Strasse” é “rua” e tinha a [igreja]strasse, a [praça]strasse e assim por diante. Ela olhava para a placa com o nome da rua e a explorava até descobrir a atração que lhe dava o nome. E assim foi desbravando a cidade. Até que se deparou com uma [não-sei-das-quantas]strasse. Ela não conhecia a palavra e decidiu explorar. Chegou ao fim da rua e não tinha nada de especial. Achou que tinha perdido alguma coisa. Até que, de noite, perguntou para um colega alemão do meu pai e este explicou que [não-sei-das-quantas] significa “rua de mão única”.
Finalmente, uma dica: já encarei “cachaça” em traduções e é um abacaxi para traduzir. Em geral, como explicação do que se trata, funciona a tradicional comparação com rum e tequila, para eles se localizarem. Mas uma tradução interessante de “aguardente”, que ao mesmo tempo dá a idéia do significado literal de “aguardente” e uma noção do uso — bebida bem popular, nada nobre — é “spitfire”, como se usa em inglês americano para designar qualquer bebida altamente alcoólica e barata. Acho essa tradução interessante porque, no exterior, a cachaça tem sido vendida como artigo de luxo, coisa que não é no Brasil.
Oi Nei, oi Carol!
Nei, obrigado pelos elogios!
fiquei todo bobo
Carol, fico feliz que tenha gostado! Seu comentário só reforça que holandês é alemão estranho, hehehe. Eles odeiam ouvir isso (com razão).
No caso da cachaça o holandês já sabia o que era, já tinha experimentado, então pelo menos não precisei situar ele sobre que tipo de bebida era – cachaça é cachaça. A tradução de aguardente eu nem tentei concluir, ele queria era mesmo me zoar por causa do lance do Agua + Ardente, o puto. Agora a dica do spitfire é muito boa, vou aplicar!
Por falar em coisa de luxo, uma 51 das mais rebas, sério mesmo, custa 18€ aqui! DEZOITO! Quando eu falei que uma dessas no Pão de Açúcar, supermercado caro e chiquetoso de sampa, custava 1€ e pouco, isso porque é super metido a besta, os caras não puseram uma fé. eles compram 51 e acham o máximo. Tsá.
É, aqui em Toronto só achamos a tal da Pitu (que acho que é bem chinfrim) por $25 doletas. Fala sério. Eu vim agora do Brasil fazendo algo que jamais me imaginaria fazendo: trouxe uma Ypióca envelhecida na mala. Isso porque eu nem gosto de cachaça… É para a caipirinha dos amigos gringos, mesmo.
achei muito legal.
devo ir a Amsterdam este ano, e gostaria muito de
saber outras novidades.
belo texto.
Opa Eli, bem-vindo! As novidades a gente vai colocando neste blog, conforme vai sendo possível. Tem já bastante dicas espalhadas por ele, mas tiver alguma curiosidade específica, manda ver que responderemos o que pudermos. Um abraço!
Ah, pessoal. Não chateiem! Holandês não é alemão complicado. Lá em casa (família holandesa, é claro…) dizemos que holandês é alemão com dor de garganta. Aprenderam agora?
E também tenho uma confirmação para esse esquisito amor dos gringos por cachaça de quinta. Moramos nos EUA e a chefe do meu marido, sabendo que estava no Brasil, pediu uma garrafa de Pitú. Brad me passou o recado por telefone e eu “Hãaaa? Garrafa de quê????” “Pee-Too”, disse meu pobre marido gringo, alongando as vogais e incluindo um charmoso soprinho logo depois do T..
- Ô Bradji, pergunte aí pra sua chefe se o que ela quer é pinga para caipirinha…
- Não. Ela quer Pee-Too, não Pinga.
Ai meus sais. Esses gringos… Lá fui eu procurar Pitú em São Paulo. Demorou pra achar. Em supermercado normal nem tinha. Acabei encontrando num mercadim de esquina pelo estonteante preço de 1,50 a garrafa. Comprei um envelope todo forrado de plástico bolha por módicos 5 reais para proteger tão importante iguaria e peguei o avião.
A chefinha ficou toda feliz e quis saber quanto o Brad lhe devia.
- Nada não, dona. Presente nosso…
Que fácil fazer média com chefe americano!
@Cynthia:
haha, boa! A gente ganhou VARIOS pontos de moral ao comprar havaianas no Brasil e dar de presente aqui na Holanda. Sucessão por quinzão.
Mais uma vez eu rindo igual um retardado na frente do computador. Creche, creche, um horror de palavra mesmo!
Em alemão também rola esse esquema de juntar palavras. Sicherheitsvorschriften (se pronuncia zirrer ráits fór chrif ten) é algo como “unidades de certeza pré-escritas” e quer dizer nada mais que “regras de segurança”. Ah, se fosse só essa a dificuldade em aprender alemão… não é a toa que não tô em Berlim, né?
Aqui em Auckland cachaça não está com essa bola toda, não. Nas Liquor Stores que eu fui não tinha nem a tal da Pitú. Sábado passada rolou uma festa entre franceses e kiwis e me ofereci para fazer a caipirinha. Ficou uma prima distante da caipirinha, pois não achei nem cachaça nem limão verde. Pra falar a verdade, de caipirinha mesmo só tinha o gelo e o açúcar de cana (que foi um achado). O importante é que o pessoal gostou e ficou todo mundo se considerando bragarai no final.
@bruno… aqui rolou uma seção de caipirinhas com dois amigos gringos… eu disse que a Carla sabia fazer uma caipirinha irada e tal. Ai e menina ficou toda querendo saber como que se fazia uma caipirinha “authentic brazilian”, observando cada cortde de limão da carla e tal. Só ai que e;la contou que tinha trampado de barwoman e era profissa em preparar drinks, e saiba prepara caipirinhas. Heh. No fim todo mundo também se cosiderou bagari (e aidna conseguimos achar o caminho até a estação de trem pra voltar de utrecht pra Amsterdam, hehe).
Estou aqui me matando de rir!! Achei o site por acaso, procurando algo na net pra estudar Holandes do Portugues (pq estou estudando de livros em ingles, eh mais dificil pra pegar a ponuncia).
Adorei o senso de humor e altas dicas tb, valeu!!
OI julia, bem-vinda! Quebom que vc curtiu o post. Mas fica tranquila, que fica difícil pra pegar a pronúcia morando aqui também, não é só em livro não, hehehe
Bjs e boa sorte.
Hahahaha…como “estudante de holandes preguiçoso nas horas vagas” eu ri muuiitoo com o relato acima hahaha….comédia!
sabe que aquela parte “Holandes não é alemão com umas palavras roubadas do inglês e francês” é verdade mesmo! Foi essa a primeira impressão que tive dessa língua cheia de ‘RRrgggrrrrrr” haha, aliás foram esses “RRrgggrrrrrr” guturais que me fizeram interessar pelo idioma aí das terras baixas….Ah a segunda foi que eles dizem “Cinco e vinte”, “Oito e Trinta” etc e nao “Vinte e cinco” ou “Trinta e oito” (só pra sacanear!rs)….agora tcho voltar lá pro taalklas.nl pra aprender dizer se o “muis” está onder, op, naast of tussen de dozen!! hehe
PS> Site adicionado aos favoritos!
Opa Thiago! Bem-vindo! Legal que você curtiu! O mais engraçado é que às vezes eles invertem o número, segundo a lógica do holandês, quando estão na verdade falando inglês, e aí se atrapalham todos. hehe. Espero que o Ducs continue merecendo sua audiência
Grande abraço!
NOssa!! muito legal, gostei do blog, está adicionado no meu favoritos!!
Me interessei pelo holandes pela sua facilidade, gosto muito.
Quero ir para Amsterdan, ou qualquer outra cidade lá da Holanda!!
Oi Edimilson!
Legal que você curtiu o blog! Espero que continuemos merecendo a audiência
Agora, caramba, voc6e se interessou pelo holandês pela facilidade?! hehe, acho que línguas novas não são um problema pra você, em geral os brazucas (incluindo este que vos escreve) apanham pra aprender essa língua cheia de sons guturais, verbos separáveis e ditongos só dela
Tomara que vc consiga realizar logo seu sonho de vir conhecer a Holanda! Qundo vier, nos avise! Abraço!