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Água de beber

por Daniduc em 28/04/2008

Uma das coisas mais óbvias sobre a Holanda é a sua relação com as águas. Quer dizer, o país vive abaixo do nível do mar, empurrando lagos e oceanos de lugar, construindo canais, inundando áreas de propósito pra defesa militar, a relação é onipresente. Mas pra gente, eu mais Carla, se manifestou de uma maneira bastante mais prosaica, numa coisa que nem é uma particularidade da Holanda, mas de qualquer país com um sistema de saneamento desenvolvido. Foi assim.

Logo que chegamos, ficamos em um hotel, por poucos dias. Abri o frigobar e vi lá aguas minerais. Como estávamos tontos e cheios de jet-lag, foi dessa mesmo que bebemos no primeiro dia, mas obviamente logo resolvemos procurar uma alternativa, porque a danada custava bem mais que a gasolina custa no Brasil. Bem mais. Logo descobri uma loja de conveniência perto do hotel que vendia água mineral mais barato que o hotel, o que ainda não quer dizer que era barato.

O mercado de água mineral é dominado pela SPA aqui na Holanda, num ponto que SPA virou sinônimo de água mineral. Se você quiser pedir uma água mineral sem gás prum holandês peça por SPA blauw, ele vai te dar (depois de achar muito interessante que você tenha aprendido algo de holandês, e te responder tudo em inglês) qualquer água mineral sem gás que ele tiver – provavelmente a SPA mesmo.

Depois que mudamos pro apê aqui, descobrimos outra mania onipresente dos holandeses, a rede de supermercado Albert Heijn (até onde eu apurei, pronuncia-se álbert réin, com o r com o som de J em espanhol ou h inglês, de house), onde passamos a gastar nossos suados euros em garrafas de SPA de litro, como fazíamos no Brasil antes de comprarmos um filtro. Até que um dia um colega da Carla, holandês, descobriu o que estávamos fazendo e replicou, chocado:

- O que você está fazendo? Por que você está desperdiçando seu dinheiro assim?!

O homem não conseguia conceber que estávamos gastando dinheiro para tomarmos apenas água mineral no dia-a-dia. Que absurdo! Por que não simplesmente tomávamos da torneira?! A Carla, ainda incrédula, perguntou:

- Well, but is it safe?

O espanto do holandês cresceu alguns pontos, e começou a exclamar que era perfeitamente seguro e que a população inteira da Holanda vivia tomando água da torneira sem maiores problemas há algum tempo. Oras!

A Carla chegou em casa aquele dia com a novidade e logo tentamos nos adaptar. Mas anos de condicionamento não são fáceis de se livrar e foi MUITO estranho tomar água da torneira. No segundo dia eu desisti e comprei uma boa e velha e segura SPA. Mas logo depois não me conformei. Havia de ser psicológico. Voltei a insistir na torneira. E, após me despir do preconceito, percebi que era muito gostosa. Sai da torneira geladinha, uma delícia mesmo. Tanto que fui ver como que ela chegava assim na casa das pessoas.

E descobri que os holandeses desenvolveram um complexo sistema de limpeza e filtragem de suas águas de beber, que inclui um passo exclusivo: filtragem através de dunas de areia! É sério! E é impressionante. Eles passam, em certo estágio da filtragem da água que irão distribuir pelas torneiras, a água por áreas de dunas, que agem como gigantescos e naturais filtros de areia. As dunas ficam fechadas pro público, claro, sendo usadas com esse exclusivo propósito. E isso contribui pra Holanda ter uma das melhores águas de torneira do mundo. Segundo o site Waterland.net:

“The Dutch water sector is renowned for its excellent reputation regarding water supply, with a ranking in the global top. In the Netherlands, the taps distribute healthy water that is chlorine-free, biologically stable and safe to drink.” (Fonte, acessada em 28 de abril de 2008)

Um modelo do sistema de filtragem de água potável holandês pode ser visitado no museu científico-estilo-pode-e-deve-tocar-em-tudo NEMO, onde tem uma sala ilustrando todos os passos da filtragem, inclusive a passagem pelas dunas, e onde a criançada se molha loucamente numa fuzarca tremenda. Outro lugar que recomendo a visita. Ainda não pude ir ver o sistema de dunas filtradoras, mas assim que for, prometo fotos pro Flickr :)

SERVIÇO

NEMO – science center

http://www.e-nemo.nl/ (Versão em inglês)
Oosterdok 2
1011VX Amsterdam
Preços: veja aqui
Localização no Google Maps.

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Daniduc, o autor do texto, tem trinta e tantos anos, é escritor e mora na Holanda: de novembro de 2007 a abril de 2010 em Amsterdam e atualmente em Haia (Den Haag para os íntimos). Escreve, fotografa e ilustra o Ducs Amsterdam. Possui também um portfolio on-line pra suas fotos e ilustrações.

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Ducs em Amsterdam » Dicas práticas de Amsterdam
25/06/2008 às 18:49
Dicas práticas de Amsterdam
15/12/2008 às 00:40

{ 4 comentários… leia abaixo ou deixe um }

Miguel 29/04/2008 às 17:10

Fiquei surpreso ao descobrir uma vez que a frase “O que não mata engorda” é derivada de uma do Nietzsche, no Crepúsculo dos Ídolos (aquilo que não me mata, me fortalece)… ou será que o velho Nietzsche apenas usou um ditado popular como aforisma de sua teoria?

Responder

Gustavo 01/05/2008 às 04:36

Olá Ducs!

É a primeira vez que visito o blog de vocês…

Aqui em Toronto é comum se beber água da torneira. Mas às vezes há problemas: há alguns anos, houve um problema no tratamento da água de uma cidade vizinha é algumas pessoas morreram… os canadenses são um pouco neuróticos com germes, então é muito comum vê-los comprando garrafas de água mineral no supermercado. Aqui não é muito caro – água realmente não falta, por enquanto – mas gosto da idéia de abrir a torneira quando dá vontade, encher um copo d’água, e não carregar uma tonelada de água voltando do supermercado – não temos carro.

A coisa engraçada é que parece que nos Estados Unidos a qualidade da agua encanada nas cidades é controlada pelo FDA e pelos departamentos de saúde estaduais, enquanto a qualidade da água mineral é controlada pelo equivalente deles do Minstério das minas e Energia. E as pessoas têm essa impressão que a água mineral é mais limpa. Até pode ser…

Valeu,

Gus

Responder

Carol 02/05/2008 às 02:47

Ih, o Gus chegou primeiro. Eu ia contar esse negócio da água encanada nos EUA supostamente ser mais segura do que a de garrafinha, porque o controle do FDA é em tese mais rigoroso.

Eu precisei fazer um certo exercício de auto-lavagem cerebral para beber água da torneira. Ainda me sinto mais tranqüila se eu encher a jarra com água da torneira da cozinha, guardar a jarra na geladeira e me servir dessa jarra. Da torneira do banheiro, nem pensar! Dá afliçãozinha pensar em tomar água do banheiro. Eca.

Responder

daniduc 02/05/2008 às 11:50

Oi Carol, bem-vindo Gus!

Carol, exatamente o que aconteceu comigo. Tive que me esforçar pra começar a beber água da torneira. Da aflição mesmo! Anos d condicionamento não saem assim fácil da nossa cabeça :)

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